Este livro trata da busca pelo componente humano que perpassa e vai além do corpo material: o espiritual. Passando por Sigmund Freud, Carl Jung, Melanie klein, Janie Rhyne e outros expoentes no campo do estudo da mente e do comportamento humano, tece  em envolvente história o percurso do personagem, a princípio cético e materialista.

Em caminho direção a...
 a saga de um ser pelas terapias expressivas em busca do humano.


  O autor Ronald Sperling, consciente de seu papel, vai abrindo novos caminhos da atuação dos profissionais de Arteterapia, evocando um processo evolutivo e criativo num diálogo permanente com a arte.
Escrito no formato contemporâneo, em especial, mesclando mitologia, alquimia, psicologia, história e toda força da Arteterapia e modalidades expressivas.
O grande valor desta obra reside na expressão poética, conduzida em linguagem do inconsciente, porque é pura metáfora, que toca a alma e o coração numa dimensão inovadora.
 A arte gera um diálogo permanente com a conexão humana, numa comunicação intersubjetiva com a pós-modernidade. A poesia ilumina, surpreende e presenteia o ser humano, dentro de uma conexão mágica.
Esse romance é um encontro que permite dar voz aos aspectos internos dos seres humanos, abre e explora caminhos da imaginação....,. deixa fluir nuances musicais, cores, dança e luzes..., faz um diálogo com as vibrações mais ocultas da beleza do universo...!
O processo criativo permite criar ampliar o olhar, valorizar o ser humano nos aspectos mais saudáveis, que favorece reelaborar traumas e desenvolver um novo ser mais sensível e repleto de sentido e sentimentos.
Trabalhar com pessoas adoecidas têm-se que favorecer o elaborar da impotência, da frustração e do sofrimento. As várias modalidades expressivas podem trazer algo de esperança e otimismo, num resgate do viver.
 A imagem que surge no processo de Arteterapia orienta o autor para uma saída do caos existencial e floresce aspectos mais vivos do ser humano.
 Enfim, um livro de Arteterapia, que traz uma dimensão inovadora, mais criativa, profunda e grandiosa. A leitura deste romance trará acréscimos à formação dos profissionais da área de Arteterapia, em especial, de torná-los mais sensíveis e empáticos com o mundo contemporâneo e com o processo criativo. 

Vamos celebrar a criação, a arte, o romance e a Arteterapia!

                                              ANA CLÁUDIA AFONSO VALLADARES

Arteterapeuta, Professora da Universidade Federal de Goiás (UFG), Doutora da Universidade de São Paulo (USP) e Vice-Presidente da Associação Brasil Central de Arteterapia.


 SPERLING STUDIUM

 
 
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Em caminho direção a...
 a saga de um ser pelas terapias expressivas em busca do humano.


Como que desperto de longo sono em noite sem fim, ainda envolto em névoas de sonhos sonhados, em não recordo ou não sei em que lugares da imaginação ou da realidade vivi, ou não, ainda com o olhar baço e com o sentir amortecido, caminho.
Caminho em direção à cidade de ... , continuidade em um tempo que passa e  leva consigo parte de mim, da carne que me compõe. Da minha parca energia.
Me encaminho para a Universidade onde cursei a ciência da astronomia. Encontro Nicolay Tribuskaya, admirado e querido mestre na arte de observar as estrelas. Nada mudou nestes anos em que estive ausente. Sentado com Nicolay em uma mesa, no restaurante, perto de uma janela que dá para um campo arborizado, sinto que o vento que sopra e os pássaros que cantam ainda são os mesmos e os casais de namorados repetem as mesmas juras de amor eterno que um dia também fiz a... e que me amou em confortantes momentos em que o tempo parava seu curso e ficava ali nos observando e desejando ser humano.
Entre uma palavra e outra, um gole de absinto e outro, contei meu percurso pelo mundo, desde que saíra da Universidade, em busca pela verdade que desvendaria e que me daria a conhecer os segredos mais íntimos do universo: aqueles que deram origem à raça humana. Falei do adormecer, de sonhos, de realidades ponderáveis e imponderáveis, de sanidade e insanidade. Metafísica e universalidade. Nicolay ponderava a respeito de suas incursões nos campos das pesquisas sobre o cérebro humano e sua formação material, sobre a mente humana e os intrigantes aspectos do comportamento dos homens – uma aventura de fascinantes desafios em mundos vislumbrados além do virtual. Somos os exploradores do século XXI, falava com orgulho, como o foram no passado Cristóvão Colombo, Américo Vespúcio, Roald Amundsen, Karen Bliksen e outros. Seus estudos tomaram a direção do cosmos exterior, morada das estrelas, para o cosmos interior do homem, onde o encontro da luz e da sombra concede à existência a suprema maravilha: a vida.
Eu, Nicolay, em dado momento, atormentado, senti o esgotar das forças criativas que me mantinham de pé, em movimento e com atitude. Procurei, em vão, mundanamente, forças que me fizessem restaurar os nervos desgastados, ansiava por voltar a sentir os acontecimentos, as cores. Os temperos da alma.
Em minha busca frenética, encontrei o Doutor... que me apresentou à Ciência Psi. Seduzido, sentia as energias retornarem, o pensamento iluminar-se e me dei conta que partia rumo à aventura de fascinantes desafios e descobertas. Esse foi o momento.
Meu caro, sua feição de espanto (você sempre me considerou como o mais materialista dos mortais), me faz vir à memória o relevo que Femenoe, a primeira sacerdotisa do templo de Delfos, na antiga Grécia, fez gravar no pórtico: “NOSCE TE IPSUM” – conhece-te a ti mesmo, lema que veio a ser a pedra angular da filosofia socrática. O que vou lhe expor agora, é o resultado de um ato de verdade nascido naturalmente de um impulso que me fez perceber que a construção da centelha da vida não se limita à matéria.
No século passado, mentes privilegiadas, se dedicaram ao aprofundamento dos estudos relacionados aos estados, não considerados normais, apresentados pela mente humana: depressão, esquizofrenia, manias, distúrbios de comportamento etc. Doutor Sgmund Freud com suas pesquisas, descobertas e constatações foi um dos que contribuíram extraordinariamente para o avanço do entendimento dos mecanismos não materiais que mantêm a mente em movimento constante, à semelhança de um moto-perpétuo.
Doutor Freud trilhou caminhos de grande e inegável encanto, nunca antes permitidos. Desvelou outras dimensões além da matéria. Nesse sentido, nos legou a compreensão de processos aos quais estamos todos sujeitos,  enquanto nossa vida, nossa passagem por este planeta for realidade. Doutor Freud criou um modelo em que a mente se apresenta tri-partida. Partes essas que interagem entre si, visando a adaptação do ser ao meio em que se encontra e sua sobrevivência em seu melhor sentido e plenitude. Cada uma detém a responsabilidade por um aspecto primordial para a estruturação do ser como indivíduo. Essas três partes foram denominadas por ele de id, ego e super ego.
O id porta os processos primários, é primitivo, amoral, insistente, impulsivo, é o reservatório dos instintos, fonte da energia psíquica, opera de acordo com o princípio do prazer.
Nicolay,... mestre... eu...
Um momento, deixe-me terminar. O ego porta os processos secundários, a razão, faz a mediação entre o id e a realidade, decide quando e como os instintos do id podem ser satisfeitos, regula os impulsos em função da realidade.
O super ego é intenso, irracional, depositário do aspecto moral da personalidade, opera de acordo com o princípio da realidade,  tem por fim inibir as demandas do id.
Meu caro, certamente, sua mente está como um caldeirão de bruxa fervilhando de curiosidade e de perguntas...
- Sim, mas... comparar minha mente a um caldeirão de bruxa... (o que terá acontecido ao meu, antes austero, mestre?)
- Antes de você começar a fazer as perguntas, preciso complementar o que estava falando, tenha mais um pouco de paciência por gentileza... o modelo proposto pelo Doutor Freud propicia compreender melhor a natureza humana, oferecendo a concepção de idéias significativas que abrigam constelações de complexidades emocionais. Não apenas as que o olho vê, mas as que a alma sente.
- Mestre, você tem que concordar que a interação entre natureza e cultura é de uma complexidade ímpar. Os homens, em quase sua totalidade, em um modo simplista de analisar os acontecimentos, apresentam em suas formas expressivas ‘achismos’ que com o passar dos tempos se tornam mitos e assumem ares de verdades universais. Vide, as diversas práticas religiosas, por exemplo. Você realmente acredita nesse mundo Psi? Não é mais um escapismo para mentes fracas? Para pessoas que precisam escorar suas deficiências, seus medos e incompetências em teorias e histórias ‘sobrenaturais’? Um ‘achismo’?
Hoje, com o estado de desenvolvimento científico em que a humanidade se encontra, pode-se observar que muitos dos mitos relacionados com o aspecto humano, como visões, estados alterados de consciência e mesmo arrebatamentos religiosos, são resultados do desenvolvimento do cérebro desde o início de sua formação, após a concepção. As bases de nossa vida mental são estruturadas entre as células e as moléculas em nosso cérebro. Se um feto feminino ficar exposto a uma sequência hormonal de padrão masculino, é provável que seja mais tipicamente masculino, como diz Rita Carter em seu O Livro de O da Mente.
- Meu caro e cético amigo, Eu, (batendo no peito), Nicolay Tribuskaya, ex-cético nas artes dos supra sentidos, hoje, parafraseando Shakespeare, vos digo: existem mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia. Você se lembra da dinâmica com a qual eu ministrava as aulas e orientava as pesquisas dos alunos? Pois bem, em nossa conversa lhe falei sobre Freud. Agora você tem a ponta do fio de uma meada, se lhe apetecer, pode desenrolá-la.
- Agradeço pela meada e sua ponta descoberta, mas, preciso que complemente o que me falou a respeito de Freud,... o que mobiliza o sujeito, impulsos primitivos? Instrumentos de percepção?  Acreditar em dimensões encantadas, em mágica?
- Bem... como transformar a pedra em pão? A maioria das terapias físicas psiquiátricas funciona pondo em movimento e norteando as emoções, nos auxiliando a alçá-las até o nível cortical, no cérebro, onde podem ser organizadas e conscientemente arrancadas das sombras. Agora é com você. Minha boca se fecha como um túmulo.
O absinto acabou, o mestre tornou aos seus discípulos que o aguardavam. Caminhando pelo campus, com o sol poente me aquecendo as costas, ponderava sobre meu encontro com Nicolay e sobre a busca eterna da verdade. Teria ele razão em tudo que me falou? Por que duvidar de alguém que eu conhecia e acima de tudo respeitava e admirava? Seriam os fantásticos caminhos que ele me descrevera, reais? É... está certo... a esperança se reafirma, não em abstrato...
Freud... Sigmund Freud... noite alta... dormir, ora dormir... quem consegue fechar os olhos e se deixar levar por Morfeu quando a mente não se aquieta ante vozes de novos horizontes que entoam canções, como sereias, chamando para novas peregrinações?
Internet. Voltar a um passado em busca de elementos para seguir rumo a um futuro que se configura. O sol desponta lançando seus raios de luz sobre o mundo que sonolento, começa a acordar. Eu, ao contrário, sonolento, começo a dormir. Sonho buscar o despertar interior, não na face da terra, mas na profunda liberdade do movimento, do belo, do equilíbrio.
Dentro do roupão, pés nos chinelos e uma xícara de café (café?) nas mãos, penso a respeito do que encontrei na internet, durante a madrugada. Bem vindo ao consultório do Dr. Sigmund Freud. Estou sentado em um sofá de veludo vermelho, com algumas almofadas, há uma pequena mesa de centro com três cadeiras bem na minha frente, quadros, gravuras e retratos na parede atrás de mim. À minha direita sobre um aparador, em frente a uma janela com as cortinas abertas, um vaso com folhagem. O chão é um mosaico de madeira. O vermelho bordeaux predomina. Enquanto aguardo, minha fantasia brinca com idéias. Uma porta se abre e sinto pulsar mais forte o coração. Como um cão que espreita sua caça, vou caminhando vagarosamente para a sala que me convida a entrar. O olhar furtivo percorre o espaço, curioso. Uma escrivaninha fica entre eu e um divã coberto por um gobelin. Ao lado do divã uma poltrona. Atrás da poltrona uma estante com figuras egipcias. Quadros pelas paredes. Grossas cortinas de veludo bordeaux cobrem as janelas. Estante com livros, bustos em pedestais, um tapete persa sobre o piso de tacos que formam desenhos geométricos. Sento-me no divã, Dr. Freud pede que eu deite e em seguida senta-se na poltrona atrás de minha cabeça, saindo do meu campo de visão. O primitivo senso me faz indagar: porque deitar em um divã? Porque ter o analista como um espectro que só observa? Dr. Freud, muito gentil e calmamente, respondeu: - para que o analisando possa ter uma experiência emocional incomum, não se pode dar a ele a oportunidade de se distrair com a visão do analista. Ele deve poder se concentrar profundamente em seus processos mentais. Assim falando, acredito que, Dr. Freud sugere uma viajem ao interior de nossa mente, ao encontro do muro de espinhos com o qual cercamos a solidão, o desprazer, os medos. A xícara de café escorrega de minha mão e cai, partindo-se e espalhando o que ainda havia de café nela pelo chão. Deixo o templo dos sonhos e retorno para a realidade. Nesse momento decidi libertar-me das amarras que me atinham a velhos paradigmas e procurar um psiquiatra.
No emaranhado mundo da internet, senti-me como que perdido em uma floresta de psiquiatras, psicanalistas, psi... E agora? Nicolay! Ele deve conhecer alguém de confiança.
Nicolay falando. Ah! Como vai? Quer dizer então que a mouche electric  (inseto inventado por Nicolay para brincar com os alunos e que ele define cientificamente como voades pesquisalis – inseto voador que transmite o vírus da necessidade de buscar, de pesquisar) picou você? Sim, conheço o Dr. ..., psiquiatra muito competente em quem confio plenamente.
Ao entrar no consultório do Dr. ..., a imagem do consultório de Freud que me acompanhava, evanesceu. Um sofá de couro branco, piso de mármore travertino, um tapete persa, uma pequena mesa de centro, de vidro com pés de ferro cromado, com algumas revistas em cima, paredes brancas, persianas brancas nas janelas, na parede oposta um balcão e a secretária sentada atrás dele. Tudo imaculadamente cândido. Minha imaginação, em suas fantasias, por mais que flutue em liberdade e criatividade, não consegue ultrapassar a porta que separa a sala do consultório da sala de espera. Aguardo. O interfone toca, a secretária atende e  pede que me dirija à sala conjunta. O Dr. ..., vai me receber. Levanto e, novamente, como um cão que espreita sua caça vou caminhando vagarosamente para encontrar o Dr. ..., que me aguarda com uma séria feição bonachona. Olho para o Dr. ..., meus olhos logo desviam dele e teimam em ir de um lado para outro percorrendo a sala. Tudo branco. Mesa de mármore branco, na estante apenas os livros tem cores diferentes do branco, de frente uma para outra duas poltronas de couro branco. Não há folhagens, apenas em um nicho em uma das paredes há um busto de Pallas Atena. Convidado a sentar-me, escolho a poltrona que fica de costas para a janela, Dr. ... senta-se a minha frente. Muito bem, inicia ele, o que posso fazer pelo senhor? Conto para ele de minha busca pela verdade universal, de que agora acreditava ter chegado o tempo de procurar respostas para questões que ultrapassam os limites da matéria e que cujas respostas são apontadas por algo além do material. Neste encontro só eu falei, Dr. ..., apenas escutou. Não percebi o tempo passar. Saí do consultório, perguntando e respondendo, conversando comigo mesmo: - pensei que haveria um diálogo, mas foi um monólogo; – o que você pode concluir desta consulta? – será que com esse comportamento o Dr. ..., estava me induzindo a concentrar em minhas elucubrações mentais? – isso você viu com Freud; - mas o doutor estava de frente para mim; - olha, Freud concluiu seus estudos em medicina em 1881, estamos no século XXI, acha que nada mudou desde então? – certo. Vamos ver como se dá a continuidade dessa experiência...
Inverno, primavera, verão, outono, Inverno... os meses passam, as sessões acontecem. Lá se vão, pouco mais de dois anos. O mudo Dr. ..., do início, agora fala, mas fala pouco, apenas o necessário para que eu, em minhas descobertas interiores, possa vislumbrar caminhos que me levem a estimular processos mobilizadores das forças de inter-relação dos processos vitais.
Chove.
Os pingos de chuva tamborilando na vidraça ditam o ritmo do meu pensamento. Deitado, com os olhos semi-cerrados, do sofá, vislumbro nas nuvens de chumbo que flutuam pesadamente pelo céu carregado, minha trajetória pelas sessões de psicanálise. O que mudou para mim? O que mudou em mim? Há diferença entre o Eu antigo e o Eu atual? Na verdade, como sinto, como enxergo agora, depois desse psico-caminho? O que, realmente, de importante ficou?
Perguntas, dúvidas, procura, sedução. As necessidades mudam, tornam-se diferentes. Respostas. Sim, desta experiência pelos caminhos psi, emergiram aspectos com qualidades que me possibilitam romper correntes que fixam à ordinária existência terrestre.
 Onde havia um abismo e nenhuma ponte agora há uma hereditariedade com a qual dialogando, brinco flertando, jogando, ordenando idéias. As expectativas dançam na busca da memória que guarda o tempo. Descartar seus mais secretos medos, hábitos e preconceitos... tentar o desconhecido.
No começo, quando das primeiras sessões com o Dr. ..., não via com muito entusiasmo e mesmo futuro naquele meu quase monólogo, deitado em um divã. Conforme as sessões foram se sucedendo, fui percebendo que alguma ordem no caos interno da mente acontecia, reconhecendo sentimentos complexos e falando às emoções profundamente escondidas.
A chuva continua, a indolência que toma conta do meu corpo continua, o refletir a respeito do mundo psi avança para além do concreto, apontando a possibilidade de existência de um mundo não físico, não material. Nesse sentido o homem seria, como pregam as religiões, um ente dual? Um ente composto por duas partes, uma o corpo físico e a outra a que chamam de alma, espírito? ... que pensamento são esses que me assaltam? Como cheguei até aqui? Nunca dei crédito a religiosidade, a psicologismos, a paranormalidade. Sempre olhei para esses processos de pensamento como desculpas para conferir a outro as guias da própria vida e explicar comportamentos diferenciados pelas pessoas fracas.
Minha compreensão abstrata requerida, de acordo com minha própria experiência de mundo (físico), para fazer sentido racional e emocional neste momento pós-psicanálise, precisa de um paradigma que reflita um novo realismo que venha a se amalgamar com o paradigma da materialidade e possibilite a origem de um novo pensar em mim.
Saio na chuva, sem capa, galocha ou mesmo chapéu. Ando a esmo. Neste momento, o que preciso é refrescar o corpo e as idéias. As águas que vêem do céu escorrem pelo meu corpo, como que lavando-o. Levam junto toda minha indolência fazendo-me sentir novamente os efeitos da picada da mouche electric.
Quis falar com Nicolay, mas ele está em Machu Pichu, no Perú, pesquisando a civilização Inca, em busca de indícios que permitam estabelecer uma linha esotérica de conhecimentos. Quem diria! Lembro-me que em uma conversa durante um fondue com amigos, ele falou a respeito de Carl Jung e suas pesquisas sobre mitologia, religião, alquimia, sonhos e arte. Complementou, como bom professor, que Freud viu em Jung um sucessor adequado para conduzir a psicanálise nos tempos futuros.  
Bem lembrado! Meu próximo passo: psicanálise Junguiana. O sangue corre mais rápido e forte em minhas veias. Volto célere para casa, um banho quente, uma xícara de chocolate quente e estou em forma para atacar a internet e conhecer o Senhor Doutor Carl Gustav Jung. Meu ritmo adquire nova configuração.
Quinta feira, 21 de novembro de ..., 17h38.
Internet – Curi, A. C. A.,  Arte Literária e Psicologia Analítica

Carl Gustav Jung, 26 de julho de 1875, Kesswil, Turgovia, Suiça. Médico psiquiatra.
“Do vastíssimo oceano da nossa psique, emerge uma pequenina ilha: é o nosso consciente.” Enunciou Jung, complementando: a nossa pequenina ilha, o consciente, existe num oceano ilimitado, que chamaremos de subconsciente e inconsciente. O subconsciente é a camada mais superficial do inconsciente, onde se encontram as recordações que podemos trazer à lembrança com facilidade, e que podem ser chamadas ao consciente a qualquer momento. O inconsciente se divide em inconsciente pessoal e inconsciente coletivo. O inconsciente pessoal é onde ficam registrados os fatos que foram esquecidos totalmente, ou por falta de uso, ou porque foram reprimidos. O inconsciente coletivo corresponde às mais profundas camadas do inconsciente, onde ficam armazenadas as imagens universais.
Sábado, 23 de novembro de ..., 23h47. Continuando a pesquisa encontro que, segundo Jung, o sonho “é uma auto representação espontânea, sob forma simbólica, da situação do inconsciente.” Que o grande trabalho descrito pelos alquimistas corresponde exatamente ao processo de individuação. “Opus alquímico e processo de individuação são fenômenos gêmeos” e que a “religiosidade é uma função natural, inerente à psique.” Em relação a arte, “o essencial é o processo criativo e o estudo psicológico da estrutura da produção artística.” A imagem que emerge do processo criativo pelo fazer artístico tem um valor que vibra como uma nota complexa e é repleta de significação pessoal.
Mais uma vez me deparo com idéias que fazem o materialismo ser visto apenas como uma parte do todo. Será esse todo, ‘maniqueísta’? Será esse todo dominado por dois princípios antagônicos e irredutíveis? Dia e noite; bem e mal; matéria e espírito; Deus e Diabo. Minha conduta a respeito do mundo psi, admito, mudou para um nível que não mais coincide com aquele que me encontrava antes de passar pelo processo psicanalítico freudiano. Processo esse, que se configurou em impulso peculiar de reestruturação do meu pensar. Mas, ainda, não posso dizer que acredito em religião, em alquimia, em sonhos; em arte como terapia... ainda em meu pensar não são mais que meras histórias da Carochinha.
O primeiro pássaro, desperto, com seu canto anuncia a aurora que se aproxima. Neste avançado da hora, não me deterei em procurar imagens do consultório onde Jung recebia seus pacientes. Vou me deitar e dormir um pouco, se minha agitada mente deixar.
Nos dias que se seguiram, eu, avidamente, voltava para a internet, sempre a procura de mais e mais informações sobre psicologia analítica.
Depois de muito refletir sobre as idéias de Jung a respeito do mundo psi, começo a vê-las como interessantes revelações. Porém, não ressoa em mim aceitá-las passivamente. É preciso estudá-las ao mesmo tempo em que as reverencio. Por outro lado, também, é preciso sentir os efeitos do fazer junguiano em si. Quero colocar-me no papel de cientista, fazer experimentos e vivenciar esses novos conhecimentos. Acredito que vai ser um importante entabular de um contato mais significativo com o, agora, atraente mundo de Jung.
Os dias foram passando. A inquietação que induz a ação foi aumentando até o ponto que me senti seduzido e tomei a decisão de procurar um psicanalista de orientação junguiana.
Sigo para o consultório de um psicanalista que orienta seus atendimentos pelos preceitos junguianos. O encontrei, ao ler um artigo por ele escrito, em uma revista de psicologia em uma visita ao dentista. Andando languidamente pela rua que me leva ao consultório do Dr. ...,  vejo do outro lado da rua, um homem encostado na porta semi cerrada de uma relojoaria, olhando as horas e dando corda em seu relógio de bolso – provavelmente é o dono da loja que a está abrindo e espera seus funcionários e artífices.
Chego ao consultório. Entro e sento em uma poltrona, a secretária fica absorta em seus afazeres. Olho para um lado e para o outro, não há muitas novidades, a não ser pelo aspecto austero do ambiente. O doutor abre a porta de sua sala, despede-se do paciente que me antecedeu e me pede que aguarde um pouco. Alguns minutos depois, o doutor reaparece e me convida para entrar. Desta vez, não vou perder tempo me atendo a detalhes da sala. Sento-me em uma poltrona, e o Dr. ... , em outra bem à minha frente. Conversamos. Ele me pede que tenha paciência, depois que o crivei de perguntas. - Lembre-se do Eclesiastes: tudo a seu tempo.
Saí do consultório, avaliando esse encontro e conversando com meus botões. Falava de uma mesa em um canto da sala com papéis e um pote com lápis de cores, foi a diferença que me chamou a atenção –  papéis e lápis. O Dr. ...,  passou um ar de competência e simpatia.
Os encontros aconteciam.
Diferentes dos encontros freudianos, a conversa com o Dr. ..., era intermediada por desenhos e pinturas de mandalas, de análises de sonhos, por mais absurdos que fossem, de apreciação de mitos e contos de fadas. Não eram interpretações aleatórias ou um fazer ao acaso, eram complementares ao sentir que eu expressava no momento.
Eu anotava os sonhos que tinha durante o período que dormia, desenhava mandalas e eventualmente me permitia fazer naturezas mortas e pintar paisagens; transformava as fantasias em contos; escrevia o que me despertava interesse e o que me repugnava. Com o correr do tempo, com a experiência vivida e o conhecimento adquirido fui percebendo que auxiliado pelo fazer artístico, era possível entrar em um contato mais íntimo comigo mesmo e encontrar lacunas em meus sentimentos e emoções.
As experiências que tenho passado me permitem, agora, acreditar que, interagir com os materiais expressivos, não pelo olhar técnico, propicia uma conversa entre o consciente e o inconsciente. Conversa que ajuda a entender como preencher as lacunas, como romper as amarras que nos mantém presos aos conflitos, como conquistar independência e segurança para contemplar o mundo.
Depois de frugal desjejum, ansiando contar minhas aventuras junguianas, vou até a Universidade para encontrar-me com Nicolay que regressara de sua viagem a Machu Pichu. Desta vez nos sentamos à sombra de um carvalho em um dos pátios internos para conversar. Ele fala de sua viajem, do povo, do local, sobre o material que coletou, das energias incomuns que sentiu e que estava trabalhando muito em sua pesquisa. Tanto que, muitas vezes é interrompido pela esposa, em altas horas, para que vá dormir.
Eu falo a respeito de minha descoberta da psicologia analítica, de Jung e de minhas experiências nas sessões de psicanálise com o Dr. ..., falo da mudança de paradigma, ou melhor, do aceitar paradigmas relativos ao mundo psi e que agora ao me olhar no espelho não vejo mais um ser puramente material. A imagem refletida nesta hora é de um ser em processo de transformações, como acontece com o lobisomem em noite de lua cheia. Diferentemente do lobisomem, me vejo em um movimento consciente rumo a essência da integração da personalidade com as diversificadas dimensões da vida.
Meu caro, fala Nicolay acendendo o cachimbo, vejo que você está em um momento importante em sua vida, um momento em que está passando de um estado de existência para outro, onde vislumbra alcançar sua completa auto-realização como ser humano.
- Sim, concordo. Considere: eu, astrônomo dedicado a desvendar os acontecimentos no universo, cuja existência considerava ser essencialmente material; eu que sempre fui admirador das idéias de Kierkegaard, de Heidegger e Sartre, principalmente; eu que era simpatizante do existencialismo; razão; eu que não acreditava e não aceitava nenhuma idéia que não fosse explicitamente comprovada pela ciência; eu que desconfiava de todos aqueles que pregavam um lado não material da vida, achando-os fantasiosos e desprovidos de sentido, agora, percebo que, embora não fizesse um juízo totalmente falso do que é o mundo, havia algo que escapava à minha percepção.
- A personalidade humana é complexa. Nem tudo é luz como nem tudo é escuridão. Confrontar o não conhecido pode provocar prazer, medo, coragem... o nível de consciência muda. Descobre-se a pessoa, até então, estranha em si.
- Vamos falar de coisas menos eruditas, porém, não desprovidas de prazer. Que tal jantarmos em minha casa no sábado? Convidarei alguns velhos amigos para nos acompanhar.
- Ótimo, marcado. Eu e minha mulher estaremos presentes.
Pensar em cores e formas... nos ingredientes em inter-relação, submetidos ao fogo que os transforma pela arte da culinária. Que sensibilidade a minha... nem em um momento como este de lazer ao lado do fogão deixo de pensar academicamente!
A aldrava com cabeça de dragão soa. Os amigos começam a chegar para o ágape fraternal. Alguns eu não via há muito tempo. As conversas vão acontecendo descontraídas, animadas pelo bordeaux, que faz refletir um tom avermelhado pelo ambiente.
Novamente ouve-se o rugir do dragão anunciando mais convidados.
Nicolay e Senhora, e ... !
- Caro amigo, tomei a liberdade de convidar a nossa amiga ... para nos fazer companhia esta noite...
-  ... ! que surpresa!
- É um prazer compartilhar esse momento em tão queridas companhias.
O luar ilumina o jardim, o perfume das flores convida, a mesa está posta...
Salmão grelhado no shoyu com gengibre, risoto de limão, vinho branco e de sobremesa peras flambadas... este é um daqueles momentos que sentimos nossa existência gratamente preenchida, estamos no Olimpo, diz Nicolay.
Não há quem discorde.
Ela. O tempo parece ter perdido seus poderes ante sua beleza. A pele dourada de sol, alta, esguia, o mel refletido em seus olhos, cabelos longos, negros como a noite que não tem luar. Os lábios encarnados como o sangue que pulsa e faz meu coração transbordar de lembranças.
- O que tem feito?
- Eu... parei com minhas andanças. Nicolay me falou sobre o professor ..., seu marido que desapareceu em uma expedição ao Amazonas, sinto muito...
- Perder meu marido para a selva, foi muito doído. Não diria que superei, mas ...
- Agora estou pesquisando sobre o mundo não material, o mundo além do material...
- O mundo psi?
- Sim. Você poderia imaginar alguém como eu enveredando por esse caminho?
- Freud, Jung, Perls, id, ego, superego, psicologia analítica, gestalt...
- Jung. Sabe, sinto-me cada vez mais cativado pelas suas idéias. Duas citações dele me tocam profundamente: “Eu considerava os fenômenos ocultos fascinantes. Eles acrescentavam uma nova dimensão à minha vida: o mundo ganhava amplitude e profundidade.”, e a outra: “Sua visão se tornará clara apenas quando você olhar para seu coração. Quem olha para fora, sonha. Quem olha para dentro, acorda.”
- Já que você está se interessando e encontrando nessa linha, respostas, por que não procura conhecer algo sobre Janie Rhyne e a arteterapia gestáltica? Acredito que é a continuidade do caminho que você está percorrendo.
Rua Cangueraçú 51. Aqui, rua Cangueraçú 51. Toco a campainha, uma moça vem atender.
- Tenho uma consulta marcada com a Dra. ...,
- Entre, fique a vontade que ela já vai atendê-lo.
Sentamos, eu e meus botões que ficam malucos, querendo falar, conversar... não acreditam, paredes uma de cada cor: amarelo, lilás, branco, verde água e o teto azul celeste. Em um canto, uma garrafa térmica de café, outra de chá, água, biscoitos, bolo de fubá..., pelas paredes, gravuras de entidades e quadros multicoloridos e esquisitos. Pufes com almofadas completam a decoração. A escrivaninha da recepcionista se destaca no canto oposto à mesinha com café.
Uma senhora surge no corredor que leva a sala de atendimento. Olho e por um momento hesito, seria a doutora? Neo – hippie? A seu favor, um olhar penetrante, cabelos caindo sobre os ombros e um sorriso cativante. A porta da sala vai se aproximando e um arrepio começa a percorrer minha coluna. Entro... almofadas pelo chão, tecidos pendentes do teto formando uma abóbada, incenso, figuras, uma pequena fonte que murmura como um gargarejo incessante. É uma tenda cigana. Ela me aponta uma poltrona para sentar. Confortável. Ela senta-se em outra à minha frente e conversamos. Falo de minha procura, de minha curiosidade, do que conheço do mundo psi e da amiga que me indicou esse caminho. Ela fala a respeito da arteterapia, seus preceitos e práticas. Faz um breve relato histórico, salienta a idéia de que a arte é o modus operandi nessa vertente terapêutica e que seu poder, nesse sentido, consiste em concorrer para o desenvolvimento de uma organização psíquica. Que relações são estabelecidas através de exercícios que estimulam processos dinâmicos, gerando transformações, vindo a tornar possível um re-configurar da vida. Argumentei que se a arte fosse terapêutica, não teríamos na história das artes, artistas esquizofrênicos, psicopatas e mesmo suicidas. Ela replicou dizendo que a preocupação primeira dos artistas ao criarem suas obras é de origem estética pura e, que um sujeito ‘não artista’, sem essa preocupação, em uma sessão de arteterapia, relaciona-se de forma lúdica, testando e desafiando o material expressivo. Com eles tece diálogos que resultam em criações que o levam a olhar para seu mundo interior e mobilizar forças que podem curar.
Vencendo sentimentos momentâneos, aceitei me expor a esse novo conhecimento. Marcamos um novo encontro.
Na semana que se seguiu, as palavras da Dra. ..., não me saíram da cabeça e percorriam meu cérebro como fantasmas arrastando correntes. A imagem da doutora acompanhava. Tudo me fazia pensar nas reais possibilidades de se trabalhar o mundo psi utilizando a arte como meio.
Foram em torno de dezoito ou vinte sessões em que desenhei, pintei, modelei, conversei e até dormi, e não senti vibrar em mim a consciência dos conflitos internos. Talvez a expectativa a respeito do que eu concebera como um processo arteterapêutico, fosse muito além da realidade palpável.
Não! Eu não pararia por aqui. Gostei de trabalhar com materiais plásticos da forma como me foi sugerido nos encontros. Continuaria a buscar, neste caminho que começara a percorrer, afirmações inteligíveis em termos de conhecimentos existentes. A segurança que liberta a curiosidade.
Nova indicação, novo movimento, novo encontro com a arteterapia. Rua Victor 364. Dra. ...
No interfone uma voz de concepção pictórica manifesta-se: pode entrar e aguardar. A porta se abre e entro em uma pequena sala que mais parece a cela de um convento. Só há um sofá para duas pessoas, não tem café, chá, biscoitos ou bolo de fubá. As paredes são de tijolo aparente. Por uma janela de tamanho diminuto posso ver um quintal com plantas. Espero. Meus botões estão em silêncio. Pela porta lateral um sorriso aparece – boa tarde! Sou a Dra. ..., vamos entrar. Sigo a doutora até um escritório. De fino aspecto, em uma mesinha a guisa de altar, a imagem de Koni, apenas. Será que estou no lugar certo? Talvez aqui seja apenas o lugar para um primeiro encontro, acredito que depois de conversarmos ela me mostrará o atelier onde realiza as sessões de arteterapia. Começamos a conversar separados por uma escrivaninha. Ela pediu para a copeira, cafés. Ao começar a contar novamente a história de minha trajetória pelo mundo psi, algo como um terremoto começou a tomar conta de meu corpo. Minhas pernas tremiam mais que vara verde. Não sei como conseguia segurar a xícara de café. Acho que consegui disfarçar bem o tamborilar que fazia com a xícara no pires. Falei de minha experiência anterior em arteterapia.
Vamos considerar, disse ela – quem sabe, como o senhor mesmo disse, seu nível de expectativa pode ter sido muito alto, quem sabe, o senhor não se sentiu a vontade em sua experiência anterior, muitos fatores podem ter contribuído...
A doutora tem razão, como sentir confiança e segurança em um consultório que parece uma tenda árabe?
Provoquei a Dra. ... , do mesmo modo que fizera com a outra doutora argumentando, novamente, que se a arte fosse terapêutica, não teríamos na história das artes, artistas esquizofrênicos, psicopatas e mesmo suicidas.
Ela sorriu, olhou fundo em meus olhos e em uma atitude de acolhimento e empatia iniciou sua reflexão a respeito da arte como caminho para a percepção da realidade.
- O uso dos materiais plásticos como elementos auxiliares em psicoterapia, tem propósito de permitir ao sujeito vivenciar sensações além dos sentidos do tato, da visão, da audição... as cores e as formas em que os materiais podem se metamorfosear ressoam com as emoções   que por sua vez excitam o físico através de um metabolismo que envolve todo o sistema sujeito – material – objeto criado. Os trabalhos artísticos realizados em sessões de arteterapia, são como mapas onde aspectos psicodinâmicos se mostram, retratando o momento do sujeito que os realiza.
- A senhora quer dizer então que, dar forma a uma idéia usando materiais plásticos é um ato de conflito e de mediação de forças? De um lado o sujeito com seu intelecto transformador e do outro lado o material que opõe resistência à vontade do sujeito que o quer transformar. Desse confronto é que nasce o fluxo e refluxo do que poderíamos chamar de respiração artística, que age como sopro de vida no corpo sensível do sujeito?
- Sim. Os materiais plásticos ao se deixarem metamorfosear, assumem morrer em seu caráter próprio, oferecendo-se inteiramente para que outro Ser transfira para eles as notas dissonantes que entoam a morte em seu viver. Desta forma, o sujeito ao expressar-se pelo fazer artístico, pode ouvir o próprio corpo, a própria mente e tem a possibilidade de partir rumo a descobertas, alegrias, novos conhecimentos e prazeres.
- O sujeito se identifica com o objeto, o conhecedor com o desconhecido, o Eu com o não Eu e se abrem para sempre os véus, atrás dos quais Isis se esconde da vista profana. É o momento do fogo da transformação.
- Poético!  Quando nos vemos novamente?
Resolvi voltar a pé para casa. Era quase noite. As luzes da cidade começavam a acender, eu conversava com minha sombra que serpenteava pelo chão. Me marcou... esse encontro... século XXI, possibilidades inovadores da arte? Arte, corpo e espírito em ressonância? A conversa com a Dra. ..., ecoou em mim. Um quase insignificante ponto brilha na imensa escuridão do meu saber.
- Hoje? Vim o caminho todo pensando que material usar. Penso que usarei algo mais fluido, como tinta guache ou aquarela. Meu espírito pede por isso.
- Ora,ora, você agora acredita em espírito? Não creio. Há quantas sessões discutimos sobre a natureza do homem? Sobre a possível existência de um princípio vital, a que poderíamos chamar espírito, que em conjunção com o corpo material compõe o homem? Estou surpresa!
- Ora, ora, há quanto tempo a senhora me apresenta a outras esferas, que não as materiais? Aquele insignificante ponto de luz que brilhou quando estive aqui pela primeira vez, como aurora boreal, agora resplandece intensamente e aquele homem que a senhora conheceu, ainda é o mesmo, porém, acredito melhorado, portador de uma visão ampliada pelas experiências pessoais. Experiências vividas durante todo esse tempo em que se entregou ao processo arteterapêutico. Agradeço pela sua responsabilidade. Usarei aquarela.
Aquarela, tinta que usa como veículo a água. Por essa razão tem extrema fluidez, transparência e mobilidade sobre o suporte em que é utilizada, geralmente papel. Inicío calmamente um diálogo visual com as tintas, olhando para suas cores. Preparo o papel que servirá de suporte para minha pintura. Separo as cores que mais falaram ao meu íntimo nesse momento – azul escuro, amarelo, verde e vermelho. Começo a pintar. Um fundo verde, sobre ele o azul, o amarelo e alguns toques de vermelho. É excitante misturar e descobrir novas cores. A pincelada é uma extensão da alma. Olho para o lado e vejo uma caixa com bastões com algodão nas pontas. Pego um deles e usando o algodão para retirar água ou tinta, começo a desenhar na pintura que estava fazendo. Para minha surpresa, o algodão solta-se da ponta do bastão e minha aquarela fica polvilhada de purpurina dourada. Procuro tirar o máximo de purpurina que posso. Deixo a aquarela secando.
- Terminou? Você estava tão absorto em seu fazer que só fiquei observando. Podemos considerar a aquarela um organismo vivo, ela própria enquanto está molhada, mesmo depois que damos por terminada a pintura, continua o processo para efetuar seu potencial. É só prestar atenção e ver como as cores continuam interagindo.
- Não creio no que fiz. Como pude não perceber que o que eu pensava ser um bastão, era um tubo com purpurina? O que pode se ocultar sob a superfície desta pintura? Que imagem minha ele reflete? ...!?
- Às vezes a intuição dita o comportamento e por mais racionais que possamos ser, ela se sobrepõe ao nosso querer. Não fique chateado. Aceite a vida, as imagens são transitórias, as vezes nebulosas, as vezes vagas e sombrias, mas sempre transitórias.
- Não quero nem conversar. Vou embora.
Rapaz, hoje você foi grosso com a doutora. A experiência que passei me abalou. Abalou muito. Jamais poderia imaginar que, em tempo algum, algo assim aconteceria comigo. O que será que me reserva a aquarela de hoje? A aquarela que vá para o diabo que a carregue. [...] Meu inconsciente desta vez não colaborou com meu consciente... ah! Não quero nem saber. Preciso é de um bom banho com sais, um travesseiro macio e uma noite bem dormida. Depois eu penso...
Abro os olhos, onde estou? Que dia é hoje? Acho que é sábado... vou dormir mais um pouco, viro para o lado... hoje é quinta feira, dormi demais... levante logo! Precisa ir trabalhar. Assim começou meu dia. O mundo nem sempre é bom.
A aquarela, pensando bem, seria um rito de passagem? A busca eterna... Um pensamento zen me vem à mente: “e aqui está o segredo: há uma boa e uma má notícia. A má é que ninguém pode saber qual é o melhor caminho para você; portanto ninguém pode dar-lhe a resposta. A boa é que já que ninguém sabe, as respostas devem ser encontradas em você mesmo.” Até que a noite de sonhos sonhados não foi tão ruim, uma revelação aconteceu: sou eu que devo descobrir naturalmente, o significado da aquarela. Meus ânimos serenam.
Drama. A aparência a que os outros mortais chamam de realidade solicita minha presença. Devo viajar. Ficar dias e dias longe. Embora, por um lado eu não deseje, pois, me afastarei das sessões de arteterapia, por outro será bom, assim terei um tempo para amadurecer minha sensibilidade e me integrar de forma mais viva ao meu lado divino.
- Eis que seu paciente ressurge das brumas de longa viajem. Senti saudades!
- Também senti saudades. Precisamos conversar...
- Hoje estou com preguiça para pensar em algo, alguma sugestão?
- Lembra-se de sua aquarela? Aqui está ela... veja...
- Pelo seu olhar posso perceber que há algo. O que há de extraordinário nela, além do que aconteceu quando eu a estava pintando?
- Olhe com mais atenção, a purpurina que caiu nela criou um efeito que eu, em tempo anterior, nunca vi. O desenho que ela formou sobre as tintas é o de um ovo que está se rompendo para o nascimento de algo. Veja, a casca do ovo é de uma filigrana quase etérea, de ouro. O movimento que se pode apreciar é o do ovo se abrindo e dele emanando uma luz que enleva, fascina e fecunda.  Em muitas cosmogonias, ciência que trata da origem e da evolução do universo, o ovo é tido como um primeiro princípio de organização depois do caos.
- Quer dizer, então, que no momento em que fiz essa pintura, e que o ‘desastre’ aconteceu, um sinal de mudança interior foi enviado por meu inconsciente, via aquarela, para meu consciente? Quer dizer que havia um caos em mim instalado pela oposição entre razão e sensibilidade, que eu vivenciava e não percebia? E que agora o significado psicológico, por assim dizer, é que consegui alcançar um estado de consciência, um nível de entendimento e que seguirei, não mais por caminhos paralelos, mas por um caminho diferente, o caminho do meio?
- Acredito que sim. Porém não espere a mudança de uma hora para outra, mesmo um remédio para um mal físico leva algum tempo para fazer efeito. A experiência pela qual você passou foi o tomar o remédio, aguarde, os efeitos virão com o tempo. Não fique ansioso.
Noite de verão, céu limpo, na cidade não se pode ver estrelas. Encontrar amigos e bater papo sem pretensões, sentado em uma mesa de bar a beira de uma calçada...
            - Que bom estar com você, obrigado por ter aceitado meu convite. Em nosso último encontro, no churrasco de aniversário de ... , conversamos mais com os amigos do que um com o outro.
            - É verdade. E o último encontro, já faz algum tempo. O que tem feito além de trabalhar e ir a sessões de arteterapia?
            - São duas coisas que não gostaria de falar esta noite, trabalho e terapia. Você teve outro companheiro, depois que seu marido desapareceu?
            - Quando  ..., desapareceu com a expedição no meio da Amazônia, eu fiquei fechada por muito tempo em meu mundo, não saía, não queria ver ninguém e penso que se acreditasse em algo maior, como acreditam as pessoas, até teria rezado e pedido, e muito, para que ele voltasse. Mas, a vida segue e chega um momento em que é preciso buscar forças, levantar e continuar a viver, mesmo com o coração envolto em uma mortalha. Agora, você sabe por que eu dificilmente saio, por que meu sorriso não tem mais a alegria de antes, por que ando sempre sozinha...; ainda..., é melhor falarmos de outra coisa.
            - Desculpe por ter sido inoportuno e feito você relembrar. Você se lembra quando estávamos na Universidade, daquela menina a ..., , que era meio hippie, fazia física e pintava as unhas, uma de cada cor?
            - Aquela que foi sua namorada? E aí, o que aconteceu? Por onde ela anda?
            - Sim, minha ex.  Uma semana, onde emendamos um feriado, fomos acampar em uma praia deserta no litoral norte. Uns dias antes de virmos embora, quando acordei, ela tinha fugido com um surfista paneleiro que tinha só o primeiro grau. Surfista paneleiro? Surfista você sabe o que é, paneleiro é o sujeito que só tem panca de surfista: cabelos com parafina, bermuda florida, prancha estilosa, mas, quando vai para o mar a água não passa de suas canelas. Ela deixou escrito com carvão na porta da barraca: fui. Dela nunca mais tive notícias. 
            - E você?
            - É lógico que fiquei na fossa, - essa foi do baú, heim? Então; fiquei acampado até a hora de voltar, curtindo a solidão, desejando que ela morresse com a boca cheia de formiga. Quando comecei a desmontar o acampamento, acho que o sol deixou meu miolo mole e de repente comecei a pensar no meu casamento com ela: domingos e macarronada na casa da sogra, filmes cabeça, papo bicho-grilo, ia ser um porre. Como diz o ditado: há males que vem para bem, nesse caso,  veio especialmente para mim. Depois dela, foi um namoro aqui, outro ali, outro acolá, e acabei ficando para titio, só me falta agora, para completar, comprar um terno preto para ir trabalhar e um cinza para ir a festas.
            - Nunca pensei em você como está hoje. Não sabia que você tinha um baú com esse vocabulário. Obrigado, você me fez rir como há muito não ria. Precisamos voltar a nos ver novamente, como hoje, fora da Universidade.
            A semana custou a passar. O estado de excitação que tomou conta de mim, depois do encontro com ..., fez os dias se arrastarem com a velocidade de caracóis.
            - Boa noite senhora doutora. Aqui estou para sua satisfação!
            - Boa noite. Quanta alegria, alguma coisa de bom aconteceu, você arrumou uma namorada?
            - Não, mas saí com minha amiga ..., de quem sempre gostei. Na verdade sou apaixonado por ela desde que nos conhecemos. Fomos tomar uma cerveja, longe do campus da Universidade. Combinamos em nos ver novamente. Foi, como dizia minha tia-avó, ‘um encontro feliz. ’
            A doutora pensa – Um encontro que faz sentir a vida mais colorida e que causa na alma o distanciamento do mundo pela emoção. Ah! A mágica do amor.
            - Hoje estou animado, não quero fazer algo como pintar, quero alguma coisa mais forte.
            - Você é quem dá a direção, sugiro um trabalho com argila.
            - Que venha a argila! Hoje quem faz a cabeça sou eu!
            - Faz a cabeça?
            - Desculpe, é uma gíria do meu tempo que quer dizer: ‘comandar o evento’ ou ‘ditar as regras’ ou ‘convencer os outros a fazerem o que eu quero...’
            A doutora vai providenciar a argila e eu fico olhando – uma porta de madeira como mesa, prateleiras com materiais plásticos e alguns trabalhos de pacientes... o atelier arteterapeutico.         
            Nossa! Argila! Um monte de barro! Úmido, frio, pegajoso! (parece que é a primeira vez que me encontro com ela, rsrsrsrs...). Será mesmo que contribui para o estabelecimento mais intenso de uma conversa, entre eu e mim mesmo, por meio de imagens tridimensionais em vez de palavras? De outras vezes foram apenas bonequinhos e coisinhas que eram para criar turbilhões nos pensamentos da doutora. Vamos ver...
Amassa, puxa, estica, amassa..., dá forma, pensa, analisa, puxa, estica, amassa, colore...cria, descria, cria de novo... a forma vai surgindo, vai emergindo do meu inconsciente, vai se materializando. Nós mesmos, enquanto provemos abundante material de elaboração, vamos apontando grande variedade de saídas. Não é a forma, o essencial, mas o conteúdo. Doutora...
            - Vejo que esse inicio de relacionamento está fazendo bem a você. As fantasias que nos fazem amenizar o dia-a-dia, aquelas que sabemos ser apenas brincadeiras de nosso imaginar, são uteis para a construção de nossa personalidade. São elas que permitem ampliar nossa significação pessoal e a habilidade de dominar a vida.
            Me permito, ou melhor, me desligo de meu lado racional, deixo meu lado emocional dirigir a experiência. O primeiro pensamento que surge e me vem de encontro: viver: estar entre os homens; morrer: deixar de estar entre os homens. Não comento. Será a imagem que surge, uma representação mental? O que essa indagação faz aqui? Ela não pertence a esse momento. A percepção retira... a imaginação acrescenta! Sou um poeta, proseando com argila? Nossos gestos inconscientes são a resposta da argila? Encontramos coisas em comum! Estou em um tapete mágico, a argila se torna um prolongamento do meu ser. A forma no barro me aguarda. O corpo fala, os músculos dialogam. Para frente, para traz, para cima, para baixo, para fora para dentro. Confortável, muito, pouco. Momentos. O passado, o presente, o futuro. Possuir, expor, ampliar a ação. Movimento.
            - Pare um pouco, a intensidade em seu fazer está deixando você perder o controle. É assim mesmo, quando o lado emocional dirige um trabalho. Mesmo os artistas em certos momentos passam por isso. Vamos relaxar um pouco. Deite-se, feche os olhos, imagine que você está no topo de uma montanha e de lá pode ver uma cidade no vale. Você desce a montanha e entra na cidade...  o que acontece?
            - Deito-me à sombra de uma árvore, um gato curioso vem ter comigo. Sinto o fluir de energias, o gato preto, curioso, encosta o nariz gelado no meu nariz quente e interroga com o olhar no meu olhar. Transforma-se do negro da noite sem lua, em claro e colorido nascer do sol.
            - Fique com essa imagem e volte para o aqui e agora...
O barro. Resistente. Amorfo. Minhas mãos, meu sentir, meu querer. Apertar, moldar. Um boneco – o contador de histórias. Sentado, braços abertos. O barro transformado, como se sentirá? Será como eu? O que conta um contador de histórias de barro? Conta aquela que meu sentir mais gosta. E sentindo, procuro pelo meu interior. A cabeça relaxa e encaixa-se entre os joelhos. As mãos e braços enlaçam as pernas. Visto por traz, apenas uma bola de barro, visto por dentro um universo imenso. O barro.
- Meu caro, quando se trabalha com materiais plásticos, o relacionamento energético corpo humano-material expressivo se dá de acordo com o tipo de manipulação que ele permite.  O  barro com suas características próprias, seus limites e suas possibilidades, está sempre pronto a partir rumo a descobertas junto com o pensar, o sentir e o querer  de quem o manipula.
- Diante do prazer em fazer, o pensamento não pára até se encontrar com o que dá forma e conteúdo, ao que está vivo no silêncio ou adormecido em um tempo que se acredita de morte. Isso é certo, doutora?
- O que a criatividade desencadeia? O processo criativo difere das ordinárias funções da mente e utiliza símbolos em diferentes contextos e proporções. Em arteterapia, cada manifestação artística revela o momento de quem a produziu, o que pensa, sente, deseja ou incomoda. Nesse sentido o sujeito precisa estar aberto para se expor a um envolvimento que o permita reproduzir a ação contínua da vida interior.
- Somos apenas humanos. O que o corpo guarda em seu âmago? Não cultuar o corpo como um santuário intocável. Não ter o corpo como um ente a ser conquistado. Não fazer do corpo objeto de desejo ou possessão. Apenas ter o corpo como seu mais fiel interlocutor. Falar com o próprio corpo? É o que a senhora quer dizer?
- Sim, falar e ora direis, ouvir o corpo.
- A criatividade avivada é como o vento que atiça a brasa adormecida?
- Diante dos novos sentidos construídos, o sujeito pode refletir e elaborar, tornado-se autor de transformações que refletirão em sua história de vida.
- VITRIOL – Visita Interiora Terrae Rectificando Invenies Ocultum Lapidem – Explora o Interior da Terra, Retificando Descobrirás a Pedra Oculta.

CONVITE

Eu, ..., seu amigo,
convido para a cerimônia de comemoração
da passagem do solstício de verão
a ser realizada dia ..., às ... horas, em  ...

Contando com suas gratas ordens,
...,















Referencias

Carter, R.  O Livro de Ouro da Mente. Ediouro. Rio de Janeiro. 2003.
Gheerbrant, J. C. A.  Dicionário de Símbolos. José Olímpio. Rio de Janeiro. 2003.
Internet – Jung, C. G. - Curi, A. C. A.,  Arte Literária e Psicologia Analítica, [on line] disponível: http://mundoarquetípico.blogspot.com/2010/06-arte-literatura-e-psicologiaanalitica8848.html
_____  - Socrates.  Wikipédia [on line] 27/11/2011. 16h05.
_____  - Freud, S.  suapesquisa.com [on line] 28/11/2011. 13h47.
Martin, P.  A Prática do Zen na Cura da Depressão. Cultrix, SP. 1999
Silveira, N.  Jung Vida e Obra. Paz e Terra. Rio de Janeiro. 1978.
Sperling, R.  Reflexões sobre Arteterapia. Curso de Pós Graduação em Arteterapia. Universidade Potiguar. Natal, RN. e Alquimy Art Centro de Pesquisa em Aprendizagem. SP. 2002.

























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