Este livro trata da
busca pelo componente humano que perpassa e vai além do corpo material: o
espiritual. Passando por Sigmund Freud, Carl Jung, Melanie klein, Janie Rhyne e
outros expoentes no campo do estudo da mente e do comportamento humano,
tece em envolvente história o percurso
do personagem, a princípio cético e materialista.
Em caminho direção a...
a saga de um ser pelas terapias expressivas
em busca do humano.
O autor Ronald
Sperling, consciente de seu papel, vai abrindo novos caminhos da atuação dos
profissionais de Arteterapia, evocando um processo evolutivo e criativo num
diálogo permanente com a arte.
Escrito no formato contemporâneo, em especial, mesclando mitologia, alquimia, psicologia, história e toda
força da Arteterapia e modalidades expressivas.
O grande valor desta obra reside na expressão poética,
conduzida em linguagem do inconsciente, porque é pura metáfora, que toca a alma
e o coração numa dimensão inovadora.
A arte gera um diálogo permanente com a
conexão humana, numa comunicação intersubjetiva com a pós-modernidade. A poesia
ilumina, surpreende e presenteia o ser humano, dentro de uma conexão
mágica.
Esse
romance é um encontro que permite dar voz aos aspectos internos dos
seres humanos, abre e explora caminhos da imaginação....,. deixa
fluir nuances musicais, cores, dança e luzes..., faz um diálogo com as
vibrações mais ocultas da beleza do universo...!
O
processo criativo permite criar ampliar o olhar, valorizar o ser humano nos
aspectos mais saudáveis, que favorece reelaborar traumas e desenvolver um novo
ser mais sensível e repleto de sentido e sentimentos.
Trabalhar
com pessoas adoecidas têm-se que favorecer o elaborar da impotência, da
frustração e do sofrimento. As várias modalidades expressivas podem trazer algo
de esperança e otimismo, num resgate do viver.
A imagem que surge no processo de
Arteterapia orienta o autor para uma saída do caos existencial e floresce
aspectos mais vivos do ser humano.
Enfim, um livro de Arteterapia, que traz uma dimensão inovadora, mais criativa, profunda e grandiosa. A leitura
deste romance trará acréscimos à formação dos profissionais da área de
Arteterapia, em especial, de torná-los mais sensíveis e empáticos com o mundo
contemporâneo e com o processo criativo.
Vamos
celebrar a criação, a arte, o romance e a Arteterapia!
ANA CLÁUDIA AFONSO VALLADARES
Arteterapeuta, Professora da Universidade Federal de Goiás
(UFG), Doutora da Universidade de São Paulo (USP) e Vice-Presidente da
Associação Brasil Central de Arteterapia.
SPERLING
STUDIUM
Não se encontra a venda em livrarias
Pode ser adquirido fazendo o pedido diretamente a
sperlingstudium@bol.com.br
Em caminho direção a...
a saga de um ser pelas terapias expressivas
em busca do humano.
Como
que desperto de longo sono em noite sem fim, ainda envolto em névoas de sonhos
sonhados, em não recordo ou não sei em que lugares da imaginação ou da
realidade vivi, ou não, ainda com o olhar baço e com o sentir amortecido,
caminho.
Caminho
em direção à cidade de ... , continuidade em um tempo que passa e leva consigo parte de mim, da carne que me
compõe. Da minha parca energia.
Me
encaminho para a Universidade onde cursei a ciência da astronomia. Encontro
Nicolay Tribuskaya, admirado e querido mestre na arte de observar as estrelas.
Nada mudou nestes anos em que estive ausente. Sentado com Nicolay em uma mesa, no
restaurante, perto de uma janela que dá para um campo arborizado, sinto que o
vento que sopra e os pássaros que cantam ainda são os mesmos e os casais de namorados
repetem as mesmas juras de amor eterno que um dia também fiz a... e que me amou
em confortantes momentos em que o tempo parava seu curso e ficava ali nos
observando e desejando ser humano.
Entre
uma palavra e outra, um gole de absinto e outro, contei meu percurso pelo
mundo, desde que saíra da Universidade, em busca pela verdade que desvendaria e
que me daria a conhecer os segredos mais íntimos do universo: aqueles que deram
origem à raça humana. Falei do adormecer, de sonhos, de realidades ponderáveis
e imponderáveis, de sanidade e insanidade. Metafísica e universalidade. Nicolay
ponderava a respeito de suas incursões nos campos das pesquisas sobre o cérebro
humano e sua formação material, sobre a mente humana e os intrigantes aspectos
do comportamento dos homens – uma aventura de fascinantes desafios em mundos
vislumbrados além do virtual. Somos os exploradores do século XXI, falava com
orgulho, como o foram no passado Cristóvão Colombo, Américo Vespúcio, Roald
Amundsen, Karen Bliksen e outros. Seus estudos tomaram a direção do cosmos
exterior, morada das estrelas, para o cosmos interior do homem, onde o encontro
da luz e da sombra concede à existência a suprema maravilha: a vida.
Eu,
Nicolay, em dado momento, atormentado, senti o esgotar das forças criativas que
me mantinham de pé, em movimento e com atitude. Procurei, em vão, mundanamente,
forças que me fizessem restaurar os nervos desgastados, ansiava por voltar a
sentir os acontecimentos, as cores. Os temperos da alma.
Em
minha busca frenética, encontrei o Doutor... que me apresentou à Ciência Psi. Seduzido,
sentia as energias retornarem, o pensamento iluminar-se e me dei conta que
partia rumo à aventura de fascinantes desafios e descobertas. Esse foi o
momento.
Meu
caro, sua feição de espanto (você sempre me considerou como o mais materialista
dos mortais), me faz vir à memória o relevo que Femenoe, a primeira sacerdotisa
do templo de Delfos, na antiga Grécia, fez gravar no pórtico: “NOSCE TE IPSUM” – conhece-te a ti
mesmo, lema que veio a ser a pedra angular da filosofia socrática. O que vou
lhe expor agora, é o resultado de um ato de verdade nascido naturalmente de um
impulso que me fez perceber que a construção da centelha da vida não se limita
à matéria.
No
século passado, mentes privilegiadas, se dedicaram ao aprofundamento dos
estudos relacionados aos estados, não considerados normais, apresentados pela
mente humana: depressão, esquizofrenia, manias, distúrbios de comportamento etc.
Doutor Sgmund Freud com suas pesquisas, descobertas e constatações foi um dos
que contribuíram extraordinariamente para o avanço do entendimento dos
mecanismos não materiais que mantêm a mente em movimento constante, à
semelhança de um moto-perpétuo.
Doutor
Freud trilhou caminhos de grande e inegável encanto, nunca antes permitidos.
Desvelou outras dimensões além da matéria. Nesse sentido, nos legou a compreensão
de processos
aos
quais estamos todos sujeitos, enquanto nossa vida,
nossa passagem por este planeta for realidade. Doutor Freud criou um modelo em
que a mente se apresenta tri-partida. Partes essas que interagem entre si,
visando a adaptação do ser ao meio em que se encontra e sua sobrevivência em
seu melhor sentido e plenitude. Cada uma detém a responsabilidade por um
aspecto primordial para a estruturação do ser como indivíduo. Essas três partes
foram denominadas por ele de id, ego e super ego.
O id porta os processos primários, é primitivo, amoral, insistente, impulsivo, é o reservatório
dos instintos, fonte da energia psíquica, opera de acordo com o princípio do
prazer.
Nicolay,...
mestre... eu...
Um
momento, deixe-me terminar. O ego porta os processos secundários, a razão, faz
a mediação entre o id e a realidade, decide quando e como os instintos do id podem
ser satisfeitos, regula os impulsos em função da realidade.
O super
ego é intenso, irracional, depositário do aspecto moral da personalidade, opera
de acordo com o princípio da realidade, tem
por fim inibir as demandas do id.
Meu
caro, certamente, sua mente está como um caldeirão de bruxa fervilhando de
curiosidade e de perguntas...
- Sim,
mas... comparar minha mente a um caldeirão de bruxa... (o que terá acontecido
ao meu, antes austero, mestre?)
- Antes
de você começar a fazer as perguntas, preciso complementar o que estava
falando, tenha mais um pouco de paciência por gentileza... o modelo proposto
pelo Doutor Freud propicia compreender melhor a natureza humana, oferecendo a
concepção de idéias significativas que abrigam constelações de complexidades
emocionais. Não apenas as que o olho vê, mas as que a alma sente.
- Mestre,
você tem que concordar que a interação entre natureza e cultura é de uma complexidade
ímpar. Os homens, em quase sua totalidade, em um modo simplista de analisar os
acontecimentos, apresentam em suas formas expressivas ‘achismos’ que com o
passar dos tempos se tornam mitos e assumem ares de verdades universais. Vide,
as diversas práticas religiosas, por exemplo. Você realmente acredita nesse
mundo Psi? Não é mais um escapismo para mentes fracas? Para pessoas que
precisam escorar suas deficiências, seus medos e incompetências em teorias e
histórias ‘sobrenaturais’? Um ‘achismo’?
Hoje,
com o estado de desenvolvimento científico em que a humanidade se encontra,
pode-se observar que muitos dos mitos relacionados com o aspecto humano, como
visões, estados alterados de consciência e mesmo arrebatamentos religiosos, são
resultados do desenvolvimento do cérebro desde o início de sua formação, após a
concepção. As bases de nossa vida mental são estruturadas entre as células e as
moléculas em nosso cérebro. Se um feto feminino ficar exposto a uma sequência
hormonal de padrão masculino, é provável que seja mais tipicamente masculino,
como diz Rita Carter em seu O Livro de O
da Mente.
- Meu caro
e cético amigo, Eu, (batendo no peito), Nicolay Tribuskaya, ex-cético nas artes
dos supra sentidos, hoje, parafraseando Shakespeare, vos digo: existem mais
coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia. Você se lembra da
dinâmica com a qual eu ministrava as aulas e orientava as pesquisas dos alunos?
Pois bem, em nossa conversa lhe falei sobre Freud. Agora você tem a ponta do
fio de uma meada, se lhe apetecer, pode desenrolá-la.
- Agradeço
pela meada e sua ponta descoberta, mas, preciso que complemente o que me falou
a respeito de Freud,... o que mobiliza o sujeito, impulsos primitivos?
Instrumentos de percepção? Acreditar em
dimensões encantadas, em mágica?
- Bem...
como transformar a pedra em pão? A maioria das terapias físicas psiquiátricas
funciona pondo em movimento e norteando as emoções, nos auxiliando a alçá-las
até o nível cortical, no cérebro, onde podem ser organizadas e conscientemente
arrancadas das sombras. Agora é com você. Minha boca se fecha como um túmulo.
O
absinto acabou, o mestre tornou aos seus discípulos que o aguardavam. Caminhando
pelo campus, com o sol poente me aquecendo as costas, ponderava sobre meu
encontro com Nicolay e sobre a busca eterna da verdade. Teria ele razão em tudo
que me falou? Por que duvidar de alguém que eu conhecia e acima de tudo
respeitava e admirava? Seriam os fantásticos caminhos que ele me descrevera, reais?
É... está certo... a esperança se reafirma, não em abstrato...
Freud...
Sigmund Freud... noite alta... dormir, ora dormir... quem consegue fechar os
olhos e se deixar levar por Morfeu quando a mente não se aquieta ante vozes de
novos horizontes que entoam canções, como sereias, chamando para novas
peregrinações?
Internet.
Voltar a um passado em busca de elementos para seguir rumo a um futuro que se
configura. O sol desponta lançando seus raios de luz sobre o mundo que
sonolento, começa a acordar. Eu, ao contrário, sonolento, começo a dormir.
Sonho buscar o despertar interior, não na face da terra, mas na profunda
liberdade do movimento, do belo, do equilíbrio.
Dentro
do roupão, pés nos chinelos e uma xícara de café (café?) nas mãos, penso a
respeito do que encontrei na internet, durante a madrugada. Bem vindo ao
consultório do Dr. Sigmund Freud. Estou sentado em um sofá de veludo vermelho,
com algumas almofadas, há uma pequena mesa de centro com três cadeiras bem na
minha frente, quadros, gravuras e retratos na parede atrás de mim. À minha
direita sobre um aparador, em frente a uma janela com as cortinas abertas, um
vaso com folhagem. O chão é um mosaico de madeira. O vermelho bordeaux predomina.
Enquanto aguardo, minha fantasia brinca com idéias. Uma porta se abre e sinto
pulsar mais forte o coração. Como um cão que espreita sua caça, vou caminhando
vagarosamente para a sala que me convida a entrar. O olhar furtivo percorre o
espaço, curioso. Uma escrivaninha fica entre eu e um divã coberto por um
gobelin. Ao lado do divã uma poltrona. Atrás da poltrona uma estante com
figuras egipcias. Quadros pelas paredes. Grossas cortinas de veludo bordeaux
cobrem as janelas. Estante com livros, bustos em pedestais, um tapete persa
sobre o piso de tacos que formam desenhos geométricos. Sento-me no divã, Dr.
Freud pede que eu deite e em seguida senta-se na poltrona atrás de minha
cabeça, saindo do meu campo de visão. O primitivo senso me faz indagar: porque
deitar em um divã? Porque ter o analista como um espectro que só observa? Dr.
Freud, muito gentil e calmamente, respondeu: - para que o analisando possa ter
uma experiência emocional incomum, não se pode dar a ele a oportunidade de se
distrair com a visão do analista. Ele deve poder se concentrar profundamente em
seus processos mentais. Assim falando, acredito que, Dr. Freud sugere uma
viajem ao interior de nossa mente, ao encontro do muro de espinhos com o qual cercamos
a solidão, o desprazer, os medos. A xícara de café escorrega de minha mão e cai,
partindo-se e espalhando o que ainda havia de café nela pelo chão. Deixo o
templo dos sonhos e retorno para a realidade. Nesse momento decidi libertar-me
das amarras que me atinham a velhos paradigmas e procurar um psiquiatra.
No
emaranhado mundo da internet, senti-me como que perdido em uma floresta de psiquiatras,
psicanalistas, psi... E agora? Nicolay! Ele deve conhecer alguém de confiança.
Nicolay
falando. Ah! Como vai? Quer dizer então que a mouche electric (inseto inventado por Nicolay para brincar com
os alunos e que ele define cientificamente como voades pesquisalis – inseto
voador que transmite o vírus da necessidade de buscar, de pesquisar) picou
você? Sim, conheço o Dr. ..., psiquiatra muito competente em quem confio
plenamente.
Ao
entrar no consultório do Dr. ..., a imagem do consultório de Freud que me
acompanhava, evanesceu. Um sofá de couro branco, piso de mármore travertino, um
tapete persa, uma pequena mesa de centro, de vidro com pés de ferro cromado,
com algumas revistas em cima, paredes brancas, persianas brancas nas janelas,
na parede oposta um balcão e a secretária sentada atrás dele. Tudo
imaculadamente cândido. Minha imaginação, em suas fantasias, por mais que
flutue em liberdade e criatividade, não consegue ultrapassar a porta que separa
a sala do consultório da sala de espera. Aguardo. O interfone toca, a secretária
atende e pede que me dirija à sala
conjunta. O Dr. ..., vai me receber. Levanto e, novamente, como um cão que
espreita sua caça vou caminhando vagarosamente para encontrar o Dr. ..., que me
aguarda com uma séria feição bonachona. Olho para o Dr. ..., meus olhos logo
desviam dele e teimam em ir de um lado para outro percorrendo a sala. Tudo
branco. Mesa de mármore branco, na estante apenas os livros tem cores
diferentes do branco, de frente uma para outra duas poltronas de couro branco.
Não há folhagens, apenas em um nicho em uma das paredes há um busto de Pallas
Atena. Convidado a sentar-me, escolho a poltrona que fica de costas para a
janela, Dr. ... senta-se a minha frente. Muito bem, inicia ele, o que posso
fazer pelo senhor? Conto para ele de minha busca pela verdade universal, de que
agora acreditava ter chegado o tempo de procurar respostas para questões que
ultrapassam os limites da matéria e que cujas respostas são apontadas por algo
além do material. Neste encontro só eu falei, Dr. ..., apenas escutou. Não
percebi o tempo passar. Saí do consultório, perguntando e respondendo,
conversando comigo mesmo: - pensei que haveria um diálogo, mas foi um monólogo;
– o que você pode concluir desta consulta? – será que com esse comportamento o
Dr. ..., estava me induzindo a concentrar em minhas elucubrações mentais? – isso
você viu com Freud; - mas o doutor estava de frente para mim; - olha, Freud
concluiu seus estudos em medicina em 1881, estamos no século XXI, acha que nada
mudou desde então? – certo. Vamos ver como se dá a continuidade dessa
experiência...
Inverno,
primavera, verão, outono, Inverno... os meses passam, as sessões acontecem. Lá
se vão, pouco mais de dois anos. O mudo Dr. ..., do início, agora fala, mas
fala pouco, apenas o necessário para que eu, em minhas descobertas interiores,
possa vislumbrar caminhos que me levem a estimular processos mobilizadores das
forças de inter-relação dos processos vitais.
Chove.
Os
pingos de chuva tamborilando na vidraça ditam o ritmo do meu pensamento. Deitado,
com os olhos semi-cerrados, do sofá, vislumbro nas nuvens de chumbo que flutuam
pesadamente pelo céu carregado, minha trajetória pelas sessões de psicanálise.
O que mudou para mim? O que mudou em mim? Há diferença entre o Eu antigo e o Eu
atual? Na verdade, como sinto, como enxergo agora, depois desse psico-caminho? O
que, realmente, de importante ficou?
Perguntas,
dúvidas, procura, sedução. As necessidades mudam, tornam-se diferentes. Respostas.
Sim, desta experiência pelos caminhos psi, emergiram aspectos com qualidades
que me possibilitam romper correntes que fixam à ordinária existência
terrestre.
Onde havia um abismo e nenhuma ponte agora há uma
hereditariedade com a qual dialogando, brinco flertando, jogando, ordenando
idéias. As expectativas dançam na busca da memória que guarda o tempo. Descartar
seus mais secretos medos, hábitos e preconceitos... tentar o desconhecido.
No
começo, quando das primeiras sessões com o Dr. ..., não via com muito
entusiasmo e mesmo futuro naquele meu quase monólogo, deitado em um divã.
Conforme as sessões foram se sucedendo, fui percebendo que alguma ordem no caos
interno da mente acontecia, reconhecendo sentimentos complexos e falando às
emoções profundamente escondidas.
A chuva
continua, a indolência que toma conta do meu corpo continua, o refletir a
respeito do mundo psi avança para além do concreto, apontando a possibilidade
de existência de um mundo não físico, não material. Nesse sentido o homem seria,
como pregam as religiões, um ente dual? Um ente composto por duas partes, uma o
corpo físico e a outra a que chamam de alma, espírito? ... que pensamento são
esses que me assaltam? Como cheguei até aqui? Nunca dei crédito a
religiosidade, a psicologismos, a paranormalidade. Sempre olhei para esses
processos de pensamento como desculpas para conferir a outro as guias da
própria vida e explicar comportamentos diferenciados pelas pessoas fracas.
Minha
compreensão abstrata requerida, de acordo com minha própria experiência de
mundo (físico), para fazer sentido racional e emocional neste momento pós-psicanálise,
precisa de um paradigma que reflita um novo realismo que venha a se amalgamar
com o paradigma da materialidade e possibilite a origem de um novo pensar em
mim.
Saio na
chuva, sem capa, galocha ou mesmo chapéu. Ando a esmo. Neste momento, o que
preciso é refrescar o corpo e as idéias. As águas que vêem do céu escorrem pelo
meu corpo, como que lavando-o. Levam junto toda minha indolência fazendo-me sentir
novamente os efeitos da picada da mouche electric.
Quis
falar com Nicolay, mas ele está em Machu Pichu, no Perú, pesquisando a
civilização Inca, em busca de indícios que permitam estabelecer uma linha
esotérica de conhecimentos. Quem diria! Lembro-me que em uma conversa durante
um fondue com amigos, ele falou a respeito de Carl Jung e suas pesquisas sobre
mitologia, religião, alquimia, sonhos e arte. Complementou, como bom professor,
que Freud viu em Jung um sucessor adequado para conduzir a psicanálise nos
tempos futuros.
Bem
lembrado! Meu próximo passo: psicanálise Junguiana. O sangue corre mais rápido
e forte em minhas veias. Volto célere para casa, um banho quente, uma xícara de
chocolate quente e estou em forma para atacar a internet e conhecer o Senhor
Doutor Carl Gustav Jung. Meu ritmo adquire nova configuração.
Quinta
feira, 21 de novembro de ..., 17h38.
Internet
– Curi, A. C. A., Arte Literária e
Psicologia Analítica
Carl
Gustav Jung, 26 de julho de 1875, Kesswil, Turgovia, Suiça. Médico psiquiatra.
“Do
vastíssimo oceano da nossa psique, emerge uma pequenina ilha: é o nosso
consciente.” Enunciou Jung, complementando: a nossa pequenina ilha, o consciente, existe num oceano ilimitado, que
chamaremos de subconsciente e inconsciente. O subconsciente é a camada mais
superficial do inconsciente, onde se encontram as recordações que podemos
trazer à lembrança com facilidade, e que podem ser chamadas ao consciente a
qualquer momento. O inconsciente se divide em inconsciente pessoal e
inconsciente coletivo. O inconsciente pessoal é onde ficam registrados os fatos
que foram esquecidos totalmente, ou por falta de uso, ou porque foram
reprimidos. O inconsciente coletivo corresponde às mais profundas camadas do
inconsciente, onde ficam armazenadas as imagens universais.
Sábado, 23 de novembro de ..., 23h47. Continuando a
pesquisa encontro que, segundo Jung, o sonho “é uma auto representação
espontânea, sob forma simbólica, da situação do inconsciente.” Que o grande
trabalho descrito pelos alquimistas corresponde exatamente ao processo de
individuação. “Opus alquímico e processo de individuação são fenômenos gêmeos”
e que a “religiosidade é uma função natural, inerente à psique.” Em relação a
arte, “o
essencial é o processo criativo e o estudo psicológico da estrutura da produção
artística.” A imagem que emerge do processo criativo pelo fazer artístico tem um
valor que vibra como uma nota complexa e é repleta de significação pessoal.
Mais
uma vez me deparo com idéias que fazem o materialismo ser visto apenas como uma
parte do todo. Será esse todo, ‘maniqueísta’? Será esse todo dominado por dois
princípios antagônicos e irredutíveis? Dia e noite; bem e mal; matéria e
espírito; Deus e Diabo. Minha conduta a respeito do mundo psi, admito, mudou
para um nível que não mais coincide com aquele que me encontrava antes de
passar pelo processo psicanalítico freudiano. Processo esse, que se configurou
em impulso peculiar de reestruturação do meu pensar. Mas, ainda, não posso
dizer que acredito em religião, em alquimia, em sonhos; em arte como terapia...
ainda em meu pensar não são mais que meras histórias da Carochinha.
O
primeiro pássaro, desperto, com seu canto anuncia a aurora que se aproxima.
Neste avançado da hora, não me deterei em procurar imagens do consultório onde
Jung recebia seus pacientes. Vou me deitar e dormir um pouco, se minha agitada
mente deixar.
Nos
dias que se seguiram, eu, avidamente, voltava para a internet, sempre a procura
de mais e mais informações sobre psicologia analítica.
Depois
de muito refletir sobre as idéias de Jung a respeito do mundo psi, começo a
vê-las como interessantes revelações. Porém, não ressoa em mim aceitá-las
passivamente. É preciso estudá-las ao mesmo tempo em que as reverencio. Por
outro lado, também, é preciso sentir os efeitos do fazer junguiano em si. Quero
colocar-me no papel de cientista, fazer experimentos e vivenciar esses novos
conhecimentos. Acredito que vai ser um importante entabular de um contato mais
significativo com o, agora, atraente mundo de Jung.
Os dias
foram passando. A inquietação que induz a ação foi aumentando até o ponto que
me senti seduzido e tomei a decisão de procurar um psicanalista de orientação
junguiana.
Sigo
para o consultório de um psicanalista que orienta seus atendimentos pelos
preceitos junguianos. O encontrei, ao ler um artigo por ele escrito, em uma
revista de psicologia em uma visita ao dentista. Andando languidamente pela rua
que me leva ao consultório do Dr. ...,
vejo do outro lado da rua, um homem encostado na porta semi cerrada de
uma relojoaria, olhando as horas e dando corda em seu relógio de bolso –
provavelmente é o dono da loja que a está abrindo e espera seus funcionários e
artífices.
Chego
ao consultório. Entro e sento em uma poltrona, a secretária fica absorta em
seus afazeres. Olho para um lado e para o outro, não há muitas novidades, a não
ser pelo aspecto austero do ambiente. O doutor abre a porta de sua sala,
despede-se do paciente que me antecedeu e me pede que aguarde um pouco. Alguns
minutos depois, o doutor reaparece e me convida para entrar. Desta vez, não vou
perder tempo me atendo a detalhes da sala. Sento-me em uma poltrona, e o Dr.
... , em outra bem à minha frente. Conversamos. Ele me pede que tenha
paciência, depois que o crivei de perguntas. - Lembre-se do Eclesiastes: tudo a
seu tempo.
Saí do
consultório, avaliando esse encontro e conversando com meus botões. Falava de
uma mesa em um canto da sala com papéis e um pote com lápis de cores, foi a
diferença que me chamou a atenção – papéis
e lápis. O Dr. ..., passou um ar de
competência e simpatia.
Os
encontros aconteciam.
Diferentes
dos encontros freudianos, a conversa com o Dr. ..., era intermediada por
desenhos e pinturas de mandalas, de análises de sonhos, por mais absurdos que fossem,
de apreciação de mitos e contos de fadas. Não eram interpretações aleatórias ou
um fazer ao acaso, eram complementares ao sentir que eu expressava no momento.
Eu
anotava os sonhos que tinha durante o período que dormia, desenhava mandalas e
eventualmente me permitia fazer naturezas mortas e pintar paisagens;
transformava as fantasias em contos; escrevia o que me despertava interesse e o
que me repugnava. Com o correr do tempo, com a experiência vivida e o
conhecimento adquirido fui percebendo que auxiliado pelo fazer artístico, era
possível entrar em um contato mais íntimo comigo mesmo e encontrar lacunas em
meus sentimentos e emoções.
As experiências
que tenho passado me permitem, agora, acreditar que, interagir com os materiais
expressivos, não pelo olhar técnico, propicia uma conversa entre o consciente e
o inconsciente. Conversa que ajuda a entender como preencher as lacunas, como romper
as amarras que nos mantém presos aos conflitos, como conquistar independência e
segurança para contemplar o mundo.
Depois de
frugal desjejum, ansiando contar minhas aventuras junguianas, vou até a
Universidade para encontrar-me com Nicolay que regressara de sua viagem a Machu
Pichu. Desta vez nos sentamos à sombra de um carvalho em um dos pátios internos
para conversar. Ele fala de sua viajem, do povo, do local, sobre o material que
coletou, das energias incomuns que sentiu e que estava trabalhando muito em sua
pesquisa. Tanto que, muitas vezes é interrompido pela esposa, em altas horas,
para que vá dormir.
Eu falo
a respeito de minha descoberta da psicologia analítica, de Jung e de minhas
experiências nas sessões de psicanálise com o Dr. ..., falo da mudança de
paradigma, ou melhor, do aceitar paradigmas relativos ao mundo psi e que agora
ao me olhar no espelho não vejo mais um ser puramente material. A imagem
refletida nesta hora é de um ser em processo de transformações, como acontece
com o lobisomem em noite de lua cheia. Diferentemente do lobisomem, me vejo em
um movimento consciente rumo a essência da integração da personalidade com as
diversificadas dimensões da vida.
Meu
caro, fala Nicolay acendendo o cachimbo, vejo que você está em um momento
importante em sua vida, um momento em que está passando de um estado de
existência para outro, onde vislumbra alcançar sua completa auto-realização
como ser humano.
- Sim,
concordo. Considere: eu, astrônomo dedicado a desvendar os acontecimentos no
universo, cuja existência considerava ser essencialmente material; eu que
sempre fui admirador das idéias de Kierkegaard, de Heidegger e Sartre,
principalmente; eu que era simpatizante do existencialismo; razão; eu que não
acreditava e não aceitava nenhuma idéia que não fosse explicitamente comprovada
pela ciência; eu que desconfiava de todos aqueles que pregavam um lado não material
da vida, achando-os fantasiosos e desprovidos de sentido, agora, percebo que,
embora não fizesse um juízo totalmente falso do que é o mundo, havia algo que
escapava à minha percepção.
- A
personalidade humana é complexa. Nem tudo é luz como nem tudo é escuridão.
Confrontar o não conhecido pode provocar prazer, medo, coragem... o nível de
consciência muda. Descobre-se a pessoa, até então, estranha em si.
- Vamos
falar de coisas menos eruditas, porém, não desprovidas de prazer. Que tal
jantarmos em minha casa no sábado? Convidarei alguns velhos amigos para nos
acompanhar.
-
Ótimo, marcado. Eu e minha mulher estaremos presentes.
Pensar
em cores e formas... nos ingredientes em inter-relação, submetidos ao fogo que
os transforma pela arte da culinária. Que sensibilidade a minha... nem em um
momento como este de lazer ao lado do fogão deixo de pensar academicamente!
A
aldrava com cabeça de dragão soa. Os amigos começam a chegar para o ágape
fraternal. Alguns eu não via há muito tempo. As conversas vão acontecendo
descontraídas, animadas pelo bordeaux, que faz refletir um tom avermelhado pelo
ambiente.
Novamente
ouve-se o rugir do dragão anunciando mais convidados.
Nicolay
e Senhora, e ... !
- Caro
amigo, tomei a liberdade de convidar a nossa amiga ... para nos fazer companhia
esta noite...
- ... ! que surpresa!
- É um
prazer compartilhar esse momento em tão queridas companhias.
O luar
ilumina o jardim, o perfume das flores convida, a mesa está posta...
Salmão
grelhado no shoyu com gengibre, risoto de limão, vinho branco e de sobremesa
peras flambadas... este é um daqueles momentos que sentimos nossa existência
gratamente preenchida, estamos no Olimpo, diz Nicolay.
Não há
quem discorde.
Ela. O
tempo parece ter perdido seus poderes ante sua beleza. A pele dourada de sol,
alta, esguia, o mel refletido em seus olhos, cabelos longos, negros como a
noite que não tem luar. Os lábios encarnados como o sangue que pulsa e faz meu
coração transbordar de lembranças.
- O que
tem feito?
- Eu...
parei com minhas andanças. Nicolay me falou sobre o professor ..., seu marido
que desapareceu em uma expedição ao Amazonas, sinto muito...
-
Perder meu marido para a selva, foi muito doído. Não diria que superei, mas ...
- Agora
estou pesquisando sobre o mundo não material, o mundo além do material...
- O
mundo psi?
- Sim.
Você poderia imaginar alguém como eu enveredando por esse caminho?
- Freud,
Jung, Perls, id, ego, superego, psicologia analítica, gestalt...
- Jung.
Sabe, sinto-me cada vez mais cativado pelas suas idéias. Duas citações dele me
tocam profundamente: “Eu considerava os fenômenos ocultos fascinantes. Eles
acrescentavam uma nova dimensão à minha vida: o mundo ganhava amplitude e
profundidade.”, e a outra: “Sua visão se tornará clara apenas quando você olhar
para seu coração. Quem olha para fora, sonha. Quem olha para dentro, acorda.”
- Já
que você está se interessando e encontrando nessa linha, respostas, por que não
procura conhecer algo sobre Janie Rhyne e a arteterapia gestáltica? Acredito
que é a continuidade do caminho que você está percorrendo.
Rua
Cangueraçú 51. Aqui, rua Cangueraçú 51. Toco a campainha, uma moça vem atender.
- Tenho
uma consulta marcada com a Dra. ...,
-
Entre, fique a vontade que ela já vai atendê-lo.
Sentamos,
eu e meus botões que ficam malucos, querendo falar, conversar... não acreditam,
paredes uma de cada cor: amarelo, lilás, branco, verde água e o teto azul
celeste. Em um canto, uma garrafa térmica de café, outra de chá, água,
biscoitos, bolo de fubá..., pelas paredes, gravuras de entidades e quadros
multicoloridos e esquisitos. Pufes com almofadas completam a decoração. A
escrivaninha da recepcionista se destaca no canto oposto à mesinha com café.
Uma
senhora surge no corredor que leva a sala de atendimento. Olho e por um momento
hesito, seria a doutora? Neo – hippie? A seu favor, um olhar penetrante,
cabelos caindo sobre os ombros e um sorriso cativante. A porta da sala vai se
aproximando e um arrepio começa a percorrer minha coluna. Entro... almofadas
pelo chão, tecidos pendentes do teto formando uma abóbada, incenso, figuras,
uma pequena fonte que murmura como um gargarejo incessante. É uma tenda cigana.
Ela me aponta uma poltrona para sentar. Confortável. Ela senta-se em outra à
minha frente e conversamos. Falo de minha procura, de minha curiosidade, do que
conheço do mundo psi e da amiga que me indicou esse caminho. Ela fala a
respeito da arteterapia, seus preceitos e práticas. Faz um breve relato
histórico, salienta a idéia de que a arte é o modus operandi nessa vertente
terapêutica e que seu poder, nesse sentido, consiste em concorrer para o
desenvolvimento de uma organização psíquica. Que relações são estabelecidas
através de exercícios que estimulam processos dinâmicos, gerando
transformações, vindo a tornar possível um re-configurar da vida. Argumentei
que se a arte fosse terapêutica, não teríamos na história das artes, artistas
esquizofrênicos, psicopatas e mesmo suicidas. Ela replicou dizendo que a
preocupação primeira dos artistas ao criarem suas obras é de origem estética
pura e, que um sujeito ‘não artista’, sem essa preocupação, em uma sessão de
arteterapia, relaciona-se de forma lúdica, testando e desafiando o material
expressivo. Com eles tece diálogos que resultam em criações que o levam a olhar
para seu mundo interior e mobilizar forças que podem curar.
Vencendo
sentimentos momentâneos, aceitei me expor a esse novo conhecimento. Marcamos um
novo encontro.
Na
semana que se seguiu, as palavras da Dra. ..., não me saíram da cabeça e
percorriam meu cérebro como fantasmas arrastando correntes. A imagem da doutora
acompanhava. Tudo me fazia pensar nas reais possibilidades de se trabalhar o
mundo psi utilizando a arte como meio.
Foram
em torno de dezoito ou vinte sessões em que desenhei, pintei, modelei,
conversei e até dormi, e não senti vibrar em mim a consciência dos conflitos
internos. Talvez a expectativa a respeito do que eu concebera como um processo
arteterapêutico, fosse muito além da realidade palpável.
Não! Eu
não pararia por aqui. Gostei de trabalhar com materiais plásticos da forma como
me foi sugerido nos encontros. Continuaria a buscar, neste caminho que começara
a percorrer, afirmações inteligíveis em termos de conhecimentos existentes. A
segurança que liberta a curiosidade.
Nova
indicação, novo movimento, novo encontro com a arteterapia. Rua Victor 364.
Dra. ...
No
interfone uma voz de concepção pictórica manifesta-se: pode entrar e aguardar.
A porta se abre e entro em uma pequena sala que mais parece a cela de um
convento. Só há um sofá para duas pessoas, não tem café, chá, biscoitos ou bolo
de fubá. As paredes são de tijolo aparente. Por uma janela de tamanho diminuto
posso ver um quintal com plantas. Espero. Meus botões estão em silêncio. Pela
porta lateral um sorriso aparece – boa tarde! Sou a Dra. ..., vamos entrar.
Sigo a doutora até um escritório. De fino aspecto, em uma mesinha a guisa de
altar, a imagem de Koni, apenas. Será que estou no lugar certo? Talvez aqui
seja apenas o lugar para um primeiro encontro, acredito que depois de
conversarmos ela me mostrará o atelier onde realiza as sessões de arteterapia. Começamos
a conversar separados por uma escrivaninha. Ela pediu para a copeira, cafés. Ao
começar a contar novamente a história de minha trajetória pelo mundo psi, algo
como um terremoto começou a tomar conta de meu corpo. Minhas pernas tremiam
mais que vara verde. Não sei como conseguia segurar a xícara de café. Acho que
consegui disfarçar bem o tamborilar que fazia com a xícara no pires. Falei de
minha experiência anterior em arteterapia.
Vamos
considerar, disse ela – quem sabe, como o senhor mesmo disse, seu nível de
expectativa pode ter sido muito alto, quem sabe, o senhor não se sentiu a
vontade em sua experiência anterior, muitos fatores podem ter contribuído...
A
doutora tem razão, como sentir confiança e segurança em um consultório que
parece uma tenda árabe?
Provoquei
a Dra. ... , do mesmo modo que fizera com a outra doutora argumentando,
novamente, que se a arte fosse terapêutica, não teríamos na história das artes,
artistas esquizofrênicos, psicopatas e mesmo suicidas.
Ela
sorriu, olhou fundo em meus olhos e em uma atitude de acolhimento e empatia
iniciou sua reflexão a respeito da arte como caminho para a percepção da
realidade.
- O uso
dos materiais plásticos como elementos auxiliares em psicoterapia, tem
propósito de permitir ao sujeito vivenciar sensações além dos sentidos do tato,
da visão, da audição... as cores e as formas em que os materiais podem se
metamorfosear ressoam com as emoções que
por sua vez excitam o físico através de um metabolismo que envolve todo o
sistema sujeito – material – objeto criado. Os trabalhos artísticos realizados
em sessões de arteterapia, são como mapas onde aspectos psicodinâmicos se
mostram, retratando o momento do sujeito que os realiza.
- A
senhora quer dizer então que, dar forma a uma idéia usando materiais plásticos
é um ato de conflito e de mediação de forças? De um lado o sujeito com seu
intelecto transformador e do outro lado o material que opõe resistência à
vontade do sujeito que o quer transformar. Desse confronto é que nasce o fluxo
e refluxo do que poderíamos chamar de respiração artística, que age como sopro
de vida no corpo sensível do sujeito?
- Sim.
Os materiais plásticos ao se deixarem metamorfosear, assumem morrer em seu
caráter próprio, oferecendo-se inteiramente para que outro Ser transfira para
eles as notas dissonantes que entoam a morte em seu viver. Desta forma, o
sujeito ao expressar-se pelo fazer artístico, pode ouvir o próprio corpo, a
própria mente e tem a possibilidade de partir rumo a descobertas, alegrias,
novos conhecimentos e prazeres.
- O
sujeito se identifica com o objeto, o conhecedor com o desconhecido, o Eu com o
não Eu e se abrem para sempre os véus, atrás dos quais Isis se esconde da vista
profana. É o momento do fogo da transformação.
- Poético! Quando nos vemos novamente?
Resolvi
voltar a pé para casa. Era quase noite. As luzes da cidade começavam a acender,
eu conversava com minha sombra que serpenteava pelo chão. Me marcou... esse
encontro... século XXI, possibilidades inovadores da arte? Arte, corpo e
espírito em ressonância? A conversa com a Dra. ..., ecoou em mim. Um quase
insignificante ponto brilha na imensa escuridão do meu saber.
- Hoje?
Vim o caminho todo pensando que material usar. Penso que usarei algo mais fluido,
como tinta guache ou aquarela. Meu espírito pede por isso.
-
Ora,ora, você agora acredita em espírito? Não creio. Há quantas sessões
discutimos sobre a natureza do homem? Sobre a possível existência de um
princípio vital, a que poderíamos chamar espírito, que em conjunção com o corpo
material compõe o homem? Estou surpresa!
- Ora,
ora, há quanto tempo a senhora me apresenta a outras esferas, que não as
materiais? Aquele insignificante ponto de luz que brilhou quando estive aqui
pela primeira vez, como aurora boreal, agora resplandece intensamente e aquele
homem que a senhora conheceu, ainda é o mesmo, porém, acredito melhorado,
portador de uma visão ampliada pelas experiências pessoais. Experiências
vividas durante todo esse tempo em que se entregou ao processo arteterapêutico.
Agradeço pela sua responsabilidade. Usarei aquarela.
Aquarela,
tinta que usa como veículo a água. Por essa razão tem extrema fluidez,
transparência e mobilidade sobre o suporte em que é utilizada, geralmente
papel. Inicío calmamente um diálogo visual com as tintas, olhando para suas
cores. Preparo o papel que servirá de suporte para minha pintura. Separo as
cores que mais falaram ao meu íntimo nesse momento – azul escuro, amarelo,
verde e vermelho. Começo a pintar. Um fundo verde, sobre ele o azul, o amarelo
e alguns toques de vermelho. É excitante misturar e descobrir novas cores. A
pincelada é uma extensão da alma. Olho para o lado e vejo uma caixa com bastões
com algodão nas pontas. Pego um deles e usando o algodão para retirar água ou
tinta, começo a desenhar na pintura que estava fazendo. Para minha surpresa, o
algodão solta-se da ponta do bastão e minha aquarela fica polvilhada de
purpurina dourada. Procuro tirar o máximo de purpurina que posso. Deixo a
aquarela secando.
- Terminou?
Você estava tão absorto em seu fazer que só fiquei observando. Podemos
considerar a aquarela um organismo vivo, ela própria enquanto está molhada, mesmo
depois que damos por terminada a pintura, continua o processo para efetuar seu
potencial. É só prestar atenção e ver como as cores continuam interagindo.
- Não
creio no que fiz. Como pude não perceber que o que eu pensava ser um bastão,
era um tubo com purpurina? O que pode se ocultar sob a superfície desta
pintura? Que imagem minha ele reflete? ...!?
- Às
vezes a intuição dita o comportamento e por mais racionais que possamos ser,
ela se sobrepõe ao nosso querer. Não fique chateado. Aceite a vida, as imagens
são transitórias, as vezes nebulosas, as vezes vagas e sombrias, mas sempre
transitórias.
- Não
quero nem conversar. Vou embora.
Rapaz,
hoje você foi grosso com a doutora. A experiência que passei me abalou. Abalou
muito. Jamais poderia imaginar que, em tempo algum, algo assim aconteceria
comigo. O que será que me reserva a aquarela de hoje? A aquarela que vá para o
diabo que a carregue. [...] Meu inconsciente desta vez não colaborou com meu
consciente... ah! Não quero nem saber. Preciso é de um bom banho com sais, um
travesseiro macio e uma noite bem dormida. Depois eu penso...
Abro os
olhos, onde estou? Que dia é hoje? Acho que é sábado... vou dormir mais um
pouco, viro para o lado... hoje é quinta feira, dormi demais... levante logo!
Precisa ir trabalhar. Assim começou meu dia. O mundo nem sempre é bom.
A
aquarela, pensando bem, seria um rito de passagem? A busca eterna... Um
pensamento zen me vem à mente: “e aqui está o segredo: há uma boa e uma má
notícia. A má é que ninguém pode saber qual é o melhor caminho para você;
portanto ninguém pode dar-lhe a resposta. A boa é que já que ninguém sabe, as
respostas devem ser encontradas em você mesmo.” Até que a noite de sonhos
sonhados não foi tão ruim, uma revelação aconteceu: sou eu que devo descobrir
naturalmente, o significado da aquarela. Meus ânimos serenam.
Drama.
A aparência a que os outros mortais chamam de realidade solicita minha
presença. Devo viajar. Ficar dias e dias longe. Embora, por um lado eu não deseje,
pois, me afastarei das sessões de arteterapia, por outro será bom, assim terei
um tempo para amadurecer minha sensibilidade e me integrar de forma mais viva ao
meu lado divino.
- Eis
que seu paciente ressurge das brumas de longa viajem. Senti saudades!
- Também
senti saudades. Precisamos conversar...
- Hoje
estou com preguiça para pensar em algo, alguma sugestão?
-
Lembra-se de sua aquarela? Aqui está ela... veja...
- Pelo
seu olhar posso perceber que há algo. O que há de extraordinário nela, além do
que aconteceu quando eu a estava pintando?
- Olhe
com mais atenção, a purpurina que caiu nela criou um efeito que eu, em tempo
anterior, nunca vi. O desenho que ela formou sobre as tintas é o de um ovo que
está se rompendo para o nascimento de algo. Veja, a casca do ovo é de uma
filigrana quase etérea, de ouro. O movimento que se pode apreciar é o do ovo se
abrindo e dele emanando uma luz que enleva, fascina e fecunda. Em muitas cosmogonias, ciência que trata da
origem e da evolução do universo, o ovo é tido como um primeiro princípio de
organização depois do caos.
- Quer
dizer, então, que no momento em que fiz essa pintura, e que o ‘desastre’
aconteceu, um sinal de mudança interior foi enviado por meu inconsciente, via
aquarela, para meu consciente? Quer dizer que havia um caos em mim instalado
pela oposição entre razão e sensibilidade, que eu vivenciava e não percebia? E
que agora o significado psicológico, por assim dizer, é que consegui alcançar
um estado de consciência, um nível de entendimento e que seguirei, não mais por
caminhos paralelos, mas por um caminho diferente, o caminho do meio?
-
Acredito que sim. Porém não espere a mudança de uma hora para outra, mesmo um
remédio para um mal físico leva algum tempo para fazer efeito. A experiência
pela qual você passou foi o tomar o remédio, aguarde, os efeitos virão com o
tempo. Não fique ansioso.
Noite
de verão, céu limpo, na cidade não se pode ver estrelas. Encontrar amigos e
bater papo sem pretensões, sentado em uma mesa de bar a beira de uma calçada...
- Que bom estar com você, obrigado
por ter aceitado meu convite. Em nosso último encontro, no churrasco de
aniversário de ... , conversamos mais com os amigos do que um com o outro.
- É verdade. E o último encontro, já
faz algum tempo. O que tem feito além de trabalhar e ir a sessões de
arteterapia?
- São duas coisas que não gostaria
de falar esta noite, trabalho e terapia. Você teve outro companheiro, depois
que seu marido desapareceu?
- Quando ..., desapareceu com a expedição no meio da
Amazônia, eu fiquei fechada por muito tempo em meu mundo, não saía, não queria
ver ninguém e penso que se acreditasse em algo maior, como acreditam as
pessoas, até teria rezado e pedido, e muito, para que ele voltasse. Mas, a vida
segue e chega um momento em que é preciso buscar forças, levantar e continuar a
viver, mesmo com o coração envolto em uma mortalha. Agora, você sabe por que eu
dificilmente saio, por que meu sorriso não tem mais a alegria de antes, por que
ando sempre sozinha...; ainda..., é melhor falarmos de outra coisa.
- Desculpe por ter sido inoportuno e
feito você relembrar. Você se lembra quando estávamos na Universidade, daquela
menina a ..., , que era meio hippie, fazia física e pintava as unhas, uma de
cada cor?
- Aquela que foi sua namorada? E aí,
o que aconteceu? Por onde ela anda?
- Sim, minha ex. Uma semana, onde emendamos um feriado, fomos
acampar em uma praia deserta no litoral norte. Uns dias antes de virmos embora,
quando acordei, ela tinha fugido com um surfista paneleiro que tinha só o
primeiro grau. Surfista paneleiro? Surfista você sabe o que é, paneleiro é o
sujeito que só tem panca de surfista: cabelos com parafina, bermuda florida,
prancha estilosa, mas, quando vai para o mar a água não passa de suas canelas.
Ela deixou escrito com carvão na porta da barraca: fui. Dela nunca mais tive
notícias.
- E você?
- É lógico que fiquei na fossa, -
essa foi do baú, heim? Então; fiquei acampado até a hora de voltar, curtindo a
solidão, desejando que ela morresse com a boca cheia de formiga. Quando comecei
a desmontar o acampamento, acho que o sol deixou meu miolo mole e de repente
comecei a pensar no meu casamento com ela: domingos e macarronada na casa da
sogra, filmes cabeça, papo bicho-grilo, ia ser um porre. Como diz o ditado: há
males que vem para bem, nesse caso, veio
especialmente para mim. Depois dela, foi um namoro aqui, outro ali, outro
acolá, e acabei ficando para titio, só me falta agora, para completar, comprar
um terno preto para ir trabalhar e um cinza para ir a festas.
- Nunca pensei em você como está
hoje. Não sabia que você tinha um baú com esse vocabulário. Obrigado, você me
fez rir como há muito não ria. Precisamos voltar a nos ver novamente, como
hoje, fora da Universidade.
A semana custou a passar. O estado
de excitação que tomou conta de mim, depois do encontro com ..., fez os dias se
arrastarem com a velocidade de caracóis.
- Boa noite senhora doutora. Aqui
estou para sua satisfação!
- Boa noite. Quanta alegria, alguma
coisa de bom aconteceu, você arrumou uma namorada?
- Não, mas saí com minha amiga ...,
de quem sempre gostei. Na verdade sou apaixonado por ela desde que nos
conhecemos. Fomos tomar uma cerveja, longe do campus da Universidade.
Combinamos em nos ver novamente. Foi, como dizia minha tia-avó, ‘um encontro feliz.
’
A doutora pensa – Um encontro que
faz sentir a vida mais colorida e que causa na alma o distanciamento do mundo
pela emoção. Ah! A mágica do amor.
- Hoje estou animado, não quero
fazer algo como pintar, quero alguma coisa mais forte.
- Você é quem dá a direção, sugiro
um trabalho com argila.
- Que venha a argila! Hoje quem faz
a cabeça sou eu!
- Faz a cabeça?
- Desculpe, é uma gíria do meu tempo
que quer dizer: ‘comandar o evento’ ou ‘ditar as regras’ ou ‘convencer os
outros a fazerem o que eu quero...’
A doutora vai providenciar a argila
e eu fico olhando – uma porta de madeira como mesa, prateleiras com materiais
plásticos e alguns trabalhos de pacientes... o atelier arteterapeutico.
Nossa! Argila! Um monte de barro!
Úmido, frio, pegajoso! (parece que é a primeira vez que me encontro com ela,
rsrsrsrs...). Será mesmo que contribui para o estabelecimento mais intenso de uma
conversa, entre eu e mim mesmo, por meio de imagens tridimensionais em vez de
palavras? De outras vezes foram apenas bonequinhos e coisinhas que eram para
criar turbilhões nos pensamentos da doutora. Vamos ver...
Amassa, puxa, estica,
amassa..., dá forma, pensa, analisa, puxa, estica, amassa, colore...cria,
descria, cria de novo... a forma vai surgindo, vai emergindo do meu
inconsciente, vai se materializando. Nós mesmos, enquanto provemos abundante
material de elaboração, vamos apontando grande variedade de saídas. Não é a
forma, o essencial, mas o conteúdo. Doutora...
- Vejo que esse inicio de
relacionamento está fazendo bem a você. As fantasias que nos fazem amenizar o
dia-a-dia, aquelas que sabemos ser apenas brincadeiras de nosso imaginar, são
uteis para a construção de nossa personalidade. São elas que permitem ampliar
nossa significação pessoal e a habilidade de dominar a vida.
Me permito, ou melhor, me desligo de
meu lado racional, deixo meu lado emocional dirigir a experiência. O primeiro
pensamento que surge e me vem de encontro: viver: estar entre os homens; morrer:
deixar de estar entre os homens. Não comento. Será a imagem que surge, uma
representação mental? O que essa indagação faz aqui? Ela não pertence a esse
momento. A percepção retira... a imaginação acrescenta! Sou um poeta, proseando
com argila? Nossos gestos inconscientes são a resposta da argila? Encontramos
coisas em comum! Estou em um tapete mágico, a argila se torna um prolongamento
do meu ser. A forma no barro me aguarda. O corpo fala, os músculos dialogam.
Para frente, para traz, para cima, para baixo, para fora para dentro.
Confortável, muito, pouco. Momentos. O passado, o presente, o futuro. Possuir,
expor, ampliar a ação. Movimento.
- Pare um pouco, a intensidade em
seu fazer está deixando você perder o controle. É assim mesmo, quando o lado
emocional dirige um trabalho. Mesmo os artistas em certos momentos passam por
isso. Vamos relaxar um pouco. Deite-se, feche os olhos, imagine que você está
no topo de uma montanha e de lá pode ver uma cidade no vale. Você desce a
montanha e entra na cidade... o que
acontece?
- Deito-me à sombra de uma árvore,
um gato curioso vem ter comigo. Sinto o fluir de energias, o gato preto,
curioso, encosta o nariz gelado no meu nariz quente e interroga com o olhar no
meu olhar. Transforma-se do negro da noite sem lua, em claro e colorido nascer
do sol.
- Fique com essa imagem e volte para
o aqui e agora...
O
barro. Resistente. Amorfo. Minhas mãos, meu sentir, meu querer. Apertar,
moldar. Um boneco – o contador de histórias. Sentado, braços abertos. O barro
transformado, como se sentirá? Será como eu? O que conta um contador de
histórias de barro? Conta aquela que meu sentir mais gosta. E sentindo, procuro
pelo meu interior. A cabeça relaxa e encaixa-se entre os joelhos. As mãos e
braços enlaçam as pernas. Visto por traz, apenas uma bola de barro, visto por
dentro um universo imenso. O barro.
- Meu
caro, quando se trabalha com materiais plásticos, o relacionamento energético
corpo humano-material expressivo se dá de acordo com o tipo de manipulação que
ele permite. O barro com suas características próprias, seus
limites e suas possibilidades, está sempre pronto a partir rumo a descobertas
junto com o pensar, o sentir e o querer de quem o manipula.
-
Diante do prazer em fazer, o pensamento não pára até se encontrar com o que dá
forma e conteúdo, ao que está vivo no silêncio ou adormecido em um tempo que se
acredita de morte. Isso é certo, doutora?
- O que
a criatividade desencadeia? O processo criativo difere das ordinárias funções
da mente e utiliza símbolos em diferentes contextos e proporções. Em
arteterapia, cada manifestação artística revela o momento de quem a produziu, o
que pensa, sente, deseja ou incomoda. Nesse sentido o sujeito precisa estar
aberto para se expor a um envolvimento que o permita reproduzir a ação contínua
da vida interior.
- Somos
apenas humanos. O que o corpo guarda em seu âmago? Não cultuar o corpo como um
santuário intocável. Não ter o corpo como um ente a ser conquistado. Não fazer
do corpo objeto de desejo ou possessão. Apenas ter o corpo como seu mais fiel
interlocutor. Falar com o próprio corpo? É o que a senhora quer dizer?
- Sim,
falar e ora direis, ouvir o corpo.
- A
criatividade avivada é como o vento que atiça a brasa adormecida?
-
Diante dos novos sentidos construídos, o sujeito pode refletir e elaborar,
tornado-se autor de transformações que refletirão em sua história de vida.
-
VITRIOL – Visita Interiora Terrae Rectificando Invenies Ocultum Lapidem –
Explora o Interior da Terra, Retificando Descobrirás a Pedra Oculta.
CONVITE
Eu, ..., seu amigo,
convido para a
cerimônia de comemoração
da passagem do
solstício de verão
a ser realizada dia
..., às ... horas, em ...
Contando com suas
gratas ordens,
...,
Referencias
Carter, R. O Livro de Ouro da Mente. Ediouro. Rio de
Janeiro. 2003.
Gheerbrant, J. C.
A. Dicionário de Símbolos. José Olímpio.
Rio de Janeiro. 2003.
Internet – Jung, C.
G. - Curi, A. C. A., Arte Literária e
Psicologia Analítica, [on line] disponível: http://mundoarquetípico.blogspot.com/2010/06-arte-literatura-e-psicologiaanalitica8848.html
_____ - Socrates.
Wikipédia [on line] 27/11/2011. 16h05.
_____ - Freud, S.
suapesquisa.com [on line] 28/11/2011. 13h47.
Martin, P. A Prática do Zen na Cura da Depressão.
Cultrix, SP. 1999
Silveira, N. Jung Vida e Obra. Paz e Terra. Rio de
Janeiro. 1978.
Sperling, R. Reflexões sobre Arteterapia. Curso de Pós
Graduação em Arteterapia. Universidade Potiguar. Natal, RN. e Alquimy Art
Centro de Pesquisa em Aprendizagem. SP. 2002.

Comentários
Postar um comentário